terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Do que somos feitos

A poesia jorra pelos poros cotidianos sem ser percebida, escorre pelo meio fio, se mistura com as flores varridas do Ipê, juntas vão para um saco, que acaba sendo furado pelo bicho homem, que não quer saber de flor tão pouco da fragrância das palavras, é atirada dentro de um caminhão, remexida, triturada, bom que seja imortal e termina por desembocar num aterro sanitário qualquer. Naquele local permanece ao relento entre dejetos humanos, sente a necessidade de ser presente, ela poderia alimentar algumas pessoas que se esgueiram por ali, não querem nada de fino biscoito, buscam a possibilidade do vil metal, apenas isso. Ressurge em forma de chuva, o povo se apressa em procurar abrigo, ela os acaricia enquanto correm, se mistura ao suor de cada um, nesse instante é feliz, adentra as ruas nobres, de classe média, das favelas, pipoca pelos varais, se intromete nas brincadeiras, assusta, refresca, e finalmente pode ser admirada, quando um raio de sol toca a umidade suspensa no ar e lá está ela, refletida pelo olhar de toda gente, em forma de arco íris no céu.

* Fotografia: Alexandre Handfest  

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Tp ássand tempo de mais em casa comendo as coisas que minha mae compra dormindo muito
to sem grana
to naquela situação em que eu estava antes de começar a trabalhar na pernambucanas e antes de trabalhar na protege
to me sentindo muito mal

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A morte do meu pau 1

Seu pau é terminal.
Passei as últimas horas remoendo essas palavras. Jamais esperava ouvi-las tão cedo de manhã, ou talvez tão cedo na vida. Do alto dos meus 28 anos, com saturno retornando com força, carrego comigo um prazo, uma contagem regressiva. Fico imaginando quantas viagens de metrô cabem em 28 anos. Depende do metrô, claro. A linha amarela sempre foi minha favorita, com toda a sua modernidade ensolarada e jovens  super transados que descem na estação Fradique Coutinho para exercerem seus designs. Estou há pelo menos 1 hora nesse trajeto que deve durar no máximo 20 minutos, indo e voltando, hora sentido Luz, hora sentido Butantã.
Terminal Butantã. Solicitamos a todos que desembarquem nesta estação.
Eu não desembarco. Gosto do chacoalhar dos vagões, do ir e vir de pessoas sentando e levantando, lendo livros em pé, ou fazendo anotações trêmulas, ou comendo um sanduíche fedido, ou escutando axé no último volume numa alegria que não consigo compartilhar. Lembro a última vez que me permiti estar suspenso no tempo e no espaço, nunca desembarcando, como quem adia sem sucesso um fato inevitável. Era sábado e fazia frio. Tempo de festa junina. Eu voltava de um humilde social com os amigos de faculdade. Tinha bebido muita catuaba e sentia os efeitos dela em mim. Diferente de hoje, estava acompanhado. De todos que se reuniram naquele espaço desagradável de food trucks e bigodes lustrosos, sobramos nós dois, eu e ela, ela e eu. Ela também se sentia levemente alcoolizada. Aquele era o momento que eu esperava há muito tempo. Estávamos sozinhos, nossos sentidos entorpecidos pelo licor da fruta amazônica, tão ruim mas tão bom, sentados lado a lado, falando bobagens sob a luz fria do metrô. Eu sabia que o silêncio viria, e ele veio. Nos encaramos por alguns segundos e não contemos o riso. Voltamos a nos encarar e voltamos a rir. Não precisávamos dizer nada, mas ela insistiu que eu explicasse. Eu quis dizer que sempre achei que a gente deveria transar. Tínhamos aquele tipo de tensão sexual não resolvida, aquele coito interrompido de olhares que imploram o toque, mas que nunca se satisfizeram por efeito dos caminhos inesperados do destino. Acabamos com outras pessoas, mas agora estávamos sozinhos. Tentei explicar como pude. Tenho certeza de que atropelei as palavras, sempre me atrapalho com eufemismos, e mesmo a catuaba não inibe totalmente a minha timidez. Mas ela entendeu bem, deu pra ver no seu sorriso. Deu pra ver ainda mais na mistura de desejo e desapontamento que tomou seu rosto em seguida. Ela me explicou que não podia. Não podíamos. Seria errado. Não para nós, para outras pessoas. Eu costumo ficar egoísta quando bebo, e boa parte dos meus erros de cálculo vem dessa falha de caráter, mas ela era uma pessoa íntegra, dessas que não desapontam os amigos. Aquilo seria uma espécie de traição que se estende no tempo, explicou ela. É como se a gente ficar agora justificasse todo o ciúme que antecedeu esse ponto, explicou ela. Fazia muito sentido, mas era difícil ficar satisfeito com isso. Tinha de existir um jeito, um loophole que nos liberasse da culpa. Foi isso que procuramos nas três ou quatro viagens que fizemos na linha amarela aquele dia. Na verdade, foi isso que eu procurei. Ela já havia tomado sua decisão há muito tempo, e depois me senti mal por ter insistido.
O que ela diria se eu ligasse agora dizendo que meu pau ia morrer? Será que essas coisas tem prazo de validade?
Abro uma foto sua no celular e fico encarando o passado que perdi. É um sentimento esquisito remexer nas memórias daquilo que poderia ter sido. Fiz as minhas escolhas e tudo que se seguiu foi consequência delas. Não era pra ser, ela me disse. E se fosse, não teria sido bom, eu tinha outra cabeça na época, ela me disse. Eu acreditei e ainda acredito. Ela é muito mais sensata que eu. Agora imagino como ela receberia a notícia do médico, se teríamos a mesma reação, se reagiria com humor ou com extrema tristeza.
Eu reagi com os dois.
Nunca consegui me sentir à vontade numa clínica. Há algo naquela iluminação, nas paredes brancas ou beges, nas secretárias robóticas, nas revistas fúteis ou na água ultrafiltrada. Não consigo saber exatamente o que é essa coisa que mexe com meu corpo e o desloca de si mesmo, um tremor subatômico, um deja vu atemporal. Nunca precisaram chamar meu nome mais de uma vez. O médico que me atendeu era muito mais velho que eu. Tinha os cabelos bem grisalhos e uma barba tão perfeitamente aparada que suspeito ter sido feita a laser. Trouxe uma série de papéis e lâminas debaixo do braço e pediu que eu ficasse de pé no canto da sala, ao lado da maca. Não disse nada quando desabotoei a calça e abaixei as cuecas. Eu sabia o porquê de estar ali e ele também. Colocou as luvas com um som elástico amedrontador, pegou o estetoscópio e pediu que eu respirasse bem fundo. Repeti o processo algumas vezes, com ele espalhando o frio estetoscopial pelo meu corpo semi nu da cintura para baixo. Aquele gelado metálico fez meu pau mexer um pouquinho, reagindo ao toque, mas só um verdadeiro especialista teria percebido. Se ele viu, não disse nada. Com uma das mãos emborrachadas massageou minhas bolas, manuseando o corpo do pênis com a outra, numa espécie de masturbação intrincada e profissional. Naquele momento eu mal me sentia presente, toda a atenção do médico reservada ao meu genital e apenas a ele. Tentei pensar em coisas felizes. No churros barato perto de casa. No sabre de luz maneiro do novo Star Wars. Na réplica do martelo do Thor que eu vi numa loja de Pinheiros. Mas os pensamentos sempre voltavam à cara de preocupação que todos os profissionais exibiam ao verem meus exames.
Hum.
Foi a primeira coisa que o doutor disse ao meu pau. Eles ainda não se conheciam. Meu antigo urologista havia se mudado para Diadema e, na correria do dia-a-dia, era impossível continuar me consultando com ele. Resolvi levar todos os exames, resultados, receitas e o caralho a quatro a esse doutor numa clínica na Liberdade, um dos melhores do ramo segundo a internet, com um Lattes tão extenso que daria um livro. Era a coisa certa a se fazer. Um olhar novo sobre o caso traria o acalento que eu precisava. Enquanto eu refletia, senti um novo movimento no meu membro já acostumado com o frio da sala ar-condicionada. Não um movimento alegre ou de surpresa, não um movimento de excitação e descoberta. Era quase um suspiro, um espasmo involuntário de um corpo moribundo.
Seu pau é terminal.
Próxima estação, Terminal Luz. Solicitamos a todos que desembarquem nesta estação.
Eu não desembarco. No metrô, estou na consulta. Na consulta, estou no metrô. Dois momentos no tempo conectados por uma linha de pensamento. Tento me concentrar.
Terminal?
Sinto dizer que seu caso é grave. Seu aparelho reprodutor, também conhecido como pênis, tem somente alguns dias de vida. Eu posso te receitar alguns medicamentos que aliviarão a dor e talvez até garantam uma sobrevida ao indivíduo, mas fato é que ele não passa dessa semana.
Terminal Luz?
Solto um riso nervoso, desesperado, triste, descontentado. Estou preso num loop. Enquanto estou na consulta, estou no metrô. E no metrô, estou no metrô. Anos atrás. E no metrô anos atrás estou pensando com meu pau, sem saber que seu tempo é relativamente curto, como um pavio inútil. Todos nós vamos morrer um dia, lembro de argumentar. Não sei se vale a pena a gente desperdiçar uma coisa boa porque alguém pode sair magoado. Ela disse que valia. É muito difícil se colocar no lugar do outro depois de algumas doses de catuaba. Pelo menos é para mim.
Descarto a fotografia e guardo o celular. Outras memórias haviam começado a sair pela tela e não quero encará-las de frente, não agora. Uma vida diferente ameaça passar pelo fundo das minhas pálpebras, então procuro mantê-las arregaladas.
É até difícil para mim dizer que esgotamos nossas possibilidades. Em todos esses anos de urologia, jamais encontrei caso como o do senhor. A literatura sempre teorizou como possível, existem até alguns estudos sobre o assunto, mas é realmente a primeira vez que encontramos um exemplar nessas condições. Inclusive, se o senhor puder assinar uns papeis, eu gostaria de conduzir uns…
Não presto atenção em suas palavras. Estou tentando formular uma pergunta que ainda não sei exatamente qual é. Atrás do doutor há uma cruz de madeira, reluzente, envernizada, pregada à parede de forma milimetricamente calculada para ser admirada de qualquer lugar da sala. Foi a primeira coisa que reparei quando entrei. É a última coisa que reparo antes de sair.
Não lembro se peguei meus documentos ou a receita na clínica. O zíper fechado da mochila indica que guardei alguma coisa, mas não quero checar agora e talvez ter que voltar. Também não consigo pensar em ir para casa. Trabalhar, jamais. O tempo não para no trem apenas porque os relógios não deixam. Os signos denunciam o dia. Você não pode escapar do calendário. Não em São Paulo.
Me pergunto quantas viagens de metrô cabem em 28 anos, mas essa pergunta é repetida. É como se uma cabeça falhasse em solidariedade a outra.
Quando finalmente visto as calças, o doutor dá uma palmadinha no meu ombro. Percebo em sua expressão que ele não costuma dar notícias tão ruins. Sua tentativa de me consolar com o rosto lembra uma máscara de papel machê retorcida.
De alguma forma vou parar na Sé. Não lembro de ter descido em alguma estação ou ter tomado outro trem, mas me encontro sentado no banco em frente às catracas. Ao meu redor acontecem transações comerciais que não consigo entender a essa distância. Do meio da multidão, um senhor grita “pega, pega! olha a faca!” enquanto outro corre carregando uma mochila desajeitadamente. Ninguém parece entender a cena, então ninguém faz nada. Saí de casa despreparado para más notícias e o frio. Abraço os joelhos e fecho os olhos.
Sai logo daqui ou eu enfio esse cabo de vassoura no seu cu, seu filho da puta.
Abro os olhos assustado, já tremendo, com a voz próxima ao meu ouvido esquerdo. Dois seguranças do metrô. Mas eles não falam comigo. Ameaçam um mendigo que carrega uns cobertores e se sentou ao meu lado enquanto eu não via. Finalmente começo a chorar. Um dos seguranças me olha.
Tá encarando o quê? Perdeu alguma coisa?
Ele deve ter a minha altura mas o triplo da massa corporal. O seu companheiro, o Segurança Gato que já foi famoso na internet, cochicha algo em seu ouvido. Os dois saem, não sem antes me encararem com nojo nas ventas.
Minhas lágrimas são geladas e têm um gosto desagradável. Decido voltar para casa e chorar em segurança. Assim que me levanto sou abordado por uma senhora de idade, os longos cabelos compridos presos num rabo de cavalo, o vestido rosa-desbotado, carregando um carrinho de feira cheio de sacos pretos logo atrás de si.
O que aconteceu, meu filho? Você está bem?
Eu… meu pau vai morrer, senhora. Meu pau tá morrendo.
Poxa… meus pêsames.
Ela me abraça e eu preciso entortar a coluna para chorar em seus ombros.
Às vezes a gente perde o que ama, meu filho. Mas o tempo cura as feridas da perda.
Ela abre a carteira e me mostra uma foto 3x4 de um rapaz. Não sei dizer se é seu marido quando jovem ou seu filho quando moço. Não me sinto confortável perguntando. Deixo que me abrace outra vez. Ao chegar em casa, encontro a foto 3x4 entre as coisas no meu bolso. O maço de cigarros. O molho de chaves. A fita isolante. E a foto. Na parte de trás está escrito “MARCIO MORRONI” e uma data de outubro ininteligível. Me sinto mal por ter ficado com ela.
Tomo um banho quente e me deito nu, ainda com os cabelos molhados. Me enrolo no edredom e ignoro meu pau, que coça pedindo carinho. Algo me parece muito engraçado. Acho que é toda essa ideia do absurda do meu pau morrer. Só pode ser uma piada de mau gosto do doutor. Os caras que fizeram a tomografia certamente já tinham sacado tudo, por isso faziam aquela cara assombrada de quem encara um fantasma. A minha cardiologista também, outra sacana. Certamente viu as receitas e deduziu a brincadeira toda.
Onde já se viu isso de pau morrer.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Despertava as águas


Despertava as águas

 
Despertava as águas o corpo derramava
perdia-se o contorno da pele e habitava a fronteira
do insuspeito. Todas as madrugadas
entorna um copo de água sente azulejos
espreguiçadeiras sem dar-se o nome
ao instante chamado na terceira presença
Nem fosse você nem eu quem acordou
com o nome da boca por onde as fases do rio
enchem ao que sobra arranja no assobio uma música baixinha
a dar vazante os lábios tremendo tremendo quase desistindo diluindo
a letra esguia de uma carta proibida de um gemido ou ruídos
de alguém chamando repetidamente, os chamados de ajuda
a uma grande explosão. Antes das manhãs
quase sempre os caminhões de lixo e as rádios adotam estações fantasmas
A sala ainda guarda um piano mudo e gavetas inacessíveis
sem reconhecer a noite olhava pela janela um filete de luz
já não reconheceria nem a cidade, ainda bem dentro
saberia da prata de toda lua
somente ao despertar as águas.






 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Você sabe

(resposta à caixa-supresa Eu Sei de Maysa Ribeiro)

Você sabe? Sabe? Enfim.
Eu de repente montinho de areia.
Mas você menor ainda. Mesmo eu sendo essa coisa minúscula que tem medo de você.
Satisfeita?
Sua boca. A expressão amarga, que bajula o chão. A superioridade enviesada da sobrancelha. Que prazer é esse?
Não acabou. Segura o gozo mais um instante. Porque eu também sei.
Descobri que você é menor do que essa caixa. Mais quadrada, mais polida. Seu segredo é só o vazio. O espaço dentro da caixa. Espaço pequeno, mas suficiente para o seu pouco ressecado. Folgado, aliás. Fecha a tampa, rápido, para nada escapar.
Nem vem se fazer de ostra. Eu tanto tempo querendo ser faca, mas cega, sem fio. Lembra? Você, útero, e eu, aborto. Você, silêncio, e eu, verborragia. Mas você só se fez concha porque me sabia sem corte. Fingiu ocultar pulso sob a craca que rasga mãos. A promessa: osso por fora e macia por dentro — mas na verdade osso e osso.
Agora reclama do disfarce, mas como eu entraria de cara limpa?
Olha pra mim. Sem tremer. Sem tremer porque eu sei que o tremor é tentativa de esconder que você não tem o que esconder. Diferente desse espasmo que repuxa sua bochecha esquerda a cada dois segundos. Isso, sim, é real. Seu. Percebe o quanto é ridículo? Pelo menos é seu.
Cuidado que se bate um vento você fica torta pra sempre.
Mas, sabe, eu ia querer te lamber mesmo torta. Arranhar de novo a língua até tirar todo o sal. Depois morder. Mastigar os olhos que veem que os meus não veem. Comer os ouvidos que me escutam dizer que sei que não há quando na verdade não sei ver o que há. Triturar buscas. Se não existe mistério, conheço o mundo. Nosso mundo sem sombra nem luz.
Quem é mais cruel: você, com seu eu-sei de riso oco, ou eu, que não vejo?
Se a gente fechasse os olhos, se encontraria?

dança

dançar
ato que te afasta do cansaço
do fastídio da vida
agarrado
solto
desengonçado
tribal
pura poesia
deixar o corpo brincar

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Ângela, a melhor amiga de Ana Maria


Persona: Ângela (melhor amiga de Ana Maria)
Mulher                        Branca
32 anos                        1,88 m                        68 quilos
Inteligente, expansiva, um pouco desengonçada/desastrada
Formada em Letras, especialista em Literatura Inglesa e crítica de teatro.

Ângela nunca dorme antes das 3h, é da madrugada. Ou está em alguma festa, ou na balada ou mergulhada em livros e discos em seu quarta e sala, onde mora sozinha.
Muito alta e magra, sempre chama atenção onde quer que vá e isso a deixa desconfortável. A altura, inclusive, lhe roubou o sonho de ser bailarina, já que era muito desengonçada, sem ritmo, sem a graça e a leveza necessárias para a dança.
A altura é um “defeito” impossível de disfarçar e todas as vezes que chega em algum lugar os olhares se voltam para ela, o que desencadeou uma estranha reação de defesa: crise de espirros.
A chegada de Ângela na festa de Ana Maria não podia ser mais bizarra. Uma mulher alta demais, magra demais, branca demais para os padrões do litoral em pleno verão, toda curvada e segurando o nariz, espirrando sem parar, enquanto a amiga tentava abraçá-la e apresentá-la a outras pessoas.
Ela quis desaparecer quando Ana simplesmente se afastou rindo muito, dizendo que voltaria mais tarde, quando ela conseguisse se controlar. Essa foi a chance de sumir do salão e se refugiar no lavabo.
Se ao menos fosse como a anfitriã, tão linda, perfeita. Amor antigo e secreto que nunca teria coragem de revelar. Odiava ver Ana bajulando a todos e correndo de um lado para outro, sempre querendo agradar. E Ricardo certamente não a merecia.
Já recomposta da crise alérgica da chegada, Ângela abre a porta do lavabo e dá de cara com Ricardo, encostado na parede e segurando duas taças de ponche.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Pensamentos de Julia


Eu não digo pra mamãe que às vezes me sinto sozinha. Disfarço um pouquinho, espero por mamãe, não sei quanto tempo dura. Acho estranha essa palavra, tempo. Os adultos falam dela sempre. O tempo todo. Eu não sei o que é tempo. Só sei que tenho um quarto lindo só pra mim cheio de coelhos. Adoro coelhos. Tenho os mais diversos coelhos de pelúcia, coelhos nas paredes, nas minhas camisolas, meus pijamas, e chinelos fofinhos com imensas orelhas de...coelhos! Fico sempre com meus queridos coelhos, converso com eles, eles me fazem companhia, enquanto mamãe trabalha. Mamãe queria tanto que eu saísse do quarto, mas não me sinto bem lá fora. As pessoas falam coisas que não compreendo, sempre falam mal dos meus cabelos e unhas compridos, o que não compreendo, eu não compreendo por que eles sempre crescem, e crescem, e crescem, e crescem, e crescem. Eu não entendo por que estou maior, minhas pernas ficaram compridas e amigos da minha mãe já disseram que tenho pernas de bambu, achei graça, mas não gosto de ninguém por perto. Apenas meus coelhos e meus livros de palavras misteriosas e figuras lindas. Sim, eu sinto falta de mamãe, queria estar mais perto dela, estar com ela em todos os cantos da casa, mas não consigo. Ouço sempre: Júlia, Júlia, Júlia. E pronto. É mamãe preocupada comigo. Não sei por que se preocupa tanto. Sou tão quietinha. Gosto de ficar aqui no meu quarto, imersa nos meus sonhos, junto com meus coelhos.


Tenho vários coelhos amigos, Godofredo sempre está junto de mim, Sebastião tem bigodes enormes, você precisa ver, Nino é um coelho miúdo e verde, e há uma coelhinha linda cor de rosa chamada... Fernanda. Não sei por que, gostei desse nome, quando eu for mãe, minha filha vai se chamar Fernanda. Quero ser mãe como minha mãe. Cuidar de uma casa linda como essa, ter muitos coelhos no quintal para Fernanda brincar. Quero ser uma mãe cheia de amor, como às vezes me dizem. “Julia é uma menina cheia de amor”. Eu gosto disso, acho bonito. Não entendo quando querem me falar de aniversário, eu não entendo o que é isso. Me dizem: “Mais um ano se passou, Julia!” E eu não sei o que é ano. Sei que sempre fica claro e escuro, que meu corpo espicha, que meu cabelo e minhas unhas crescem, o que deixa mamãe apavorada, e sei que odeio escuro. Por isso mamãe iluminou todo meu quarto, ele nunca fica escuro, e eu durmo bom assim com todos os meus amigos. Godofredo num braço Sebastião, no outro, Nino fica sempre na estante, e Fernanda prefere ficar na caminha que preparei para ela, bem aqui do lado da minha.

O ponche que vai ter sal


(trecho da personagem Ana Maria na produção coletiva A Festa)

O ponche das festas na casa da avó. Vermelho, borbulhante, com frutas náufragas entre flocos de espuma. Doce, doce. Porcaria de vinho barato com refrigerante. Para os adultos. Para as crianças, groselha barata com refrigerante. Mas tinha a poncheira. Para os adultos. De cristal com relevo bico de jaca. Até a concha de cristal. Não tenho a receita do ponche da avó nem preciso porque o importante é a poncheira que herdei com o jogo de copos. Fino algum dia mas hoje as taças pequenas demais ou abertas demais para um vinho decente. Melhor encher de mousse de chocolate. Engraçado que quando criança eu imaginava os cristais desenhados o máximo do chique. Já devia ser démodé para a época — assim como sou démodé por falar démodé —, mas eu admirava aquela fragilidade alinhada em fileiras no bufê de imbuia. Intocável para meus dedos curtos de unhas cortadas até o talo. Dedos expostos como a cara esticada pelo rabo de cavalo. O elástico que sempre se embaraçava no cabelo. Não à toa nunca prendi o cabelo da Júlia. No maternal, eu entregava a menina leoa na escola e ao meio-dia recebia de volta uma gata lambida de gel. Recadinho da professora na agenda: corte as unhas da Júlia, por favor. Eu cortava, mas às vezes me entregava ao prazer de ver minha filha despenteada em um caos disforme de cachos e ondas segurar com garras de bicho o copo de cristal cheio de limonada. Nunca quebra nada, a Júlia. Ao contrário de mim. “Você tem uma imensa capacidade para o desastre, Ana Maria.” A avó dizia e era verdade. Eu já sabia na época. Olhava com cobiça para os copos e para as mãos que os faziam balançar no ar. Pensava que um dia entenderia e adentraria aquele mundo de perfumes que coçavam o nariz, tecidos lustrosos, piadas do meu avô, penteados que deixavam as mulheres ainda mais altas e pés como os da dona Zenaide. Como me perturbavam os pés da dona Zenaide. Sempre sentada, com  sapatos pontudos e decotados expondo a risca entre o dedão e o dedo vizinho. Que aflição a distância longa entre o bico do escarpim, onde eu imaginava que acabavam os dedos, e a risca onde eles começavam.  Outro dia comprei um escarpim por causa da dona Zenaide. Lembrei dela quando experimentei o par na loja e vi a fenda entre os dedos aparecer acima do couro preto. Meio centímetro obsceno de dedo exposto no espelho da loja. Calcei para encontrar o Ricardo, mas ele nem reparou, foi logo tirando tudo daquele jeito estabanado dele. Será que o Ricardo vem?
Nas festas da avó, um bando de médicos sem imaginação, e eu achando que estava em O Grande Gatsby — ainda não tinha lido o livro, só conhecia a capa, da prateleira do quarto da mãe da Íris, e pensava que era sobre um gato de olhos chorosos. Mesmo o meu Carnaval de advogada tem convidados menos sensatos.
Tanta fruta para picar. Eu devia ter pedido para a Filomena deixar tudo cortado e separado em tupperware, agora é tarde, essa hora ela já está em casa com os meninos dela e eu estou aqui, de avental e faca na mão. Depois vou ter que correr para tomar banho e passar maquiagem. Checar a Júlia também. Espero que ela não  apronte hoje. Dia de festa, ela não percebe do que se trata mas sempre se agita. Ainda com esse calor... O pior é esse calor. O suor que escorre entre as coxas e desce em fio até a empapar a sola da havaiana. Parece urina, mas refresca. E o Ricardo que faz questão de me ver fazer xixi depois de transar? Coitada da Íris.
Será que os pedaços estão de bom tamanho? Ah, têm que estar. A poncheira é da avó, mas na casa dela quem cortava tudo eram os empregados. Descascavam e picavam laranja sem deixar fiapo de parte branca e amarga. Era como se a fruta tivesse nascido só suco encapsulado em membranas finas imperceptíveis, sem fibras e muito menos sementes para desafiar os dentes. Um trabalho minucioso mais tarde atirado à mistura de vinho doce, guaraná e sei lá mais o quê. Felizmente perdi a receita. Bom, tudo cortado. Vamos lá. Espumante — seco, claro. As frutas: morango, framboesa, amora, laranja (incluindo a parte branca entre os gomos). Cointreau. Sementes de baunilha. Agora  um tico de açúcar… O que foi isso?
— Julia? Julia? Espera que eu já subo aí.
O açúcar. Misturo bem...
— Julia!

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O Encontro

por Bárbara Zocal e Bruna Meneguetti

Sei nada dessa menina, não. Deve estar pensando violeta ou lilás. Li nessas canoas de carvalho que ela traz na carola. Se espicham tanto quando franze o nariz, de querer engolir meu mundo.
Tinha certeza que seus olhos eram verdes. Verdes como esmeralda, verdes como um mar calmo num dia de sol, verdes como a grama bem molhada. Agora eu os vejo castanhos e fico em pânico. Como posso ter me enganado tanto? Mal a conheço e já acabo de descobrir que a conheço pior do que imaginava. Mas a gente se engana com as coisas invisíveis e não com as visíveis. A menos que se esteja cego em todos os sentidos...  E eu estava cega todos esses dias quando a vi com seus olhos verdes que não estão mais aí. E o mais curioso é que sempre os achei lindos! Pensava: que lindos olhos verdes aquela moça tem. Fiquei refletindo por muitos minutos como eu fui ver olhos verdes no lugar dos seus. Nesse quesito não costumo me enganar, eles são a janela da alma. E é como se eu visse a sacada de um apartamento onde, na verdade, é uma casa. Igualmente bonitas mas tão distintas.
Seus olhos, estranhos são não. Crendeiros. Vi no espelho, anos atrás. Relumbravam os sóis ondulantes no mar, bebiam horizonte. Mas sofrer de cisma dá nisso, menina. Mar que se entra sem ler, Ipupiara pega mesmo.
Distraída estava na popa, ou na proa, sei bem não, aguava os pés de vida. O insolente me rebocou pro fundo, encharcou minhas canoas d’água salgada. Resisti não, mas sabia que o calado do mar não bastava. Por isso digo, menina, as ondulâncias do verde confundem, impossível ancorar na tormenta, até que se aviste o areal baio.
Pensei que poderia ser uma questão espiritual. Seu âmago carrega olhos verdes, sua aura, seu desejo, sua paz, sua luz? Porque vi olhos verdes? Me diga? Qual é essa camada estranha que nos impede de perceber os outros? Sentir suas dores, seus amores, entender que é gente como a gente não importa se são olhos de esmeralda ou chocolate. Você e esse verde que agora procuro insistentemente, como se estivesse mentindo para mim, e justo agora que estamos frente a frente! Como pode fazer isso comigo para me presentear com esses novos olhos? Não me sinto digna do castanho deles. Cultuei o verde como se ele fosse algo irrefutável. Fiz um altar para ele, o cumprimentei, percebi sua presença antes de você chegar. O verde acenou para mim. Mas agora o castanho me chama à realidade. Seu rosto muda, mas é como se a minha máscara caísse ao perceber que o verde não está aí, que ele não vai voltar. Que o verde que vi é outra coisa… É um procurar e não perceber, esperar e não chegar, abraçar sem tocar. E o filme passa na minha cabeça diversas vezes com aquele verde fugindo de mim toda vez que tento procurar mais a fundo.
Dianta não, menina, todo esse foxtrote. Nada verá além dos olhos donde jazem desventuras. Janela alma minha não sorri mais não. Está maculada, é pó da saudade. A casa, o verde, ficou tudo pra trás.
Seu verde me lembra ausência e ele é a materialização da própria. Seu verde é despedida, seu verde é choro e também saudades, seu verde é amor, seu verde é intocável. Quero conhecer a verdade por trás do verde que nunca existiu. Quero que me conte quem é e porque escolheu mentir sobre o verde. Quero que me diga porque acha que o verde a escolheu. Não me leve tão a sério. Eu não sei nada sobre você, apenas que tinha um verde que a seguia e que, um belo dia, parou. Eu também tinha olhos verdes que me seguiam, sabe? Seu verde é o mesmo daquela que amei. Que aconteceu? Não sei bem, mas me lembram seus olhos. Eram verdes até que simplesmente deixaram de ser. O que eu via, então, era apenas o reflexo de meus olhos. Gosto de pensar que seu verde e o meu estão por aí escondidos, esperando o melhor momento para voltar e dizer que, na verdade, esse tempo todo eles estavam juntos em todos os lugares, com todos os verdes do mundo que andam sumindo por aí. Se quer saber, acho que um dia esse verde vai deixar de ser ausência para se transformar em preenchimento. E vamos celebrar o verde de novo. Eu e você.
O que me diz?...
Seus olhos são mesmo verdes!
Ah, é a luz...
Ah, é a sala e as paredes…
Ah, é que vai chover e aí eles ficam mais cheios de barro…
Engraçado. Há um minuto eu poderia jurar que eram castanhos. Como a gente se engana. Como pode existir tanto verde no seu castanho, tanto castanho no seu verde? Já lhe disseram que seus olhos são lindos? Nunca vi nenhum mudar de cor assim. E se quer saber é ótimo poder te conhecer sem ser obrigada a ter certeza sobre qual a cor de seus olhos.
Sou você que me vê. Canoas minhas, abissais, mera lente da vida. Sigo ao socairo, lhana.


quarta-feira, 17 de agosto de 2016



Menina dos olhos

– Foi um abraço, obrigada – digo, te deixando livre enquanto isso.
– Não sei o que dizer – você me responde, sorrindo.
– Não precisa. Foram dois minutos?
– Pareceu menos, passou rápido. Foi intenso, não foi?
– Não.
– Não? – você se assusta com minha franqueza. – Quer dizer, foi intenso, mas não foi rápido. Foi um tempo diferente do relógio – explico, tocando na sua mão para buscar cumplicidade.
– Sim, sim...
E fica um silêncio de cinco segundos, demorado como a eternidade. – Bom, a gente se vê. Até quinta.
– Até.
Não te disse nada disso, mas queria ter dito. Queria ter te abraçado mesmo no final. Te olhei e dialoguei com você, profundamente. Disse coisas que têm me incomodado, difíceis, penosas. Você me ouviu. Respondeu até o que não ousei formular como pergunta, mas você intuiu. Somos duas mulheres sensíveis e fortes. Nossos olhos foram nossa boca e ouvido, coração. Me senti plena, rasgada e costurada com cuidado. Obrigada.

encontro


desejo de escapar
antes da chegada
frio no estômago
dor de barriga
respira
olha prá frente
caminha com segurança
traça diálogos
pensa
se beijo ou abraço
os dois talvez
controla ansiedade
vai
que só você
aparece ao encontro

vazio


Mais sozinho que de costume, nesse fim de manhã deslizo o meu olhar pela paisagem, uma televisão ligada sempre na mesma emissora, imagem sem áudio ainda bem, não dá para um bom café com papo furado via Embratel, a preguiça do domingo que se debruça sobre as pessoas, a censura da menina granola sobre a criança que se acaba numa fatia de salame na mesa ao lado, nada na cuca, tão bom, confesso que é difícil ficar assim, geralmente trago umas folhas, uma caneta para alguns versinhos, não tenho disciplina para a escrita, nunca tive, nesse  lugar as ideias pipocam, nem sempre ganham forma mas, dá para matar o tempo, assassino das horas fito o velhinho que sempre aparece para três pães e um litro de leite, sinto um certo efeito de amanhã nele embora, no ontem tenha feito isso quando ela ainda me suportava, um pão para cada e outro que ficava amanhecido, depois virava torrada, ganhava geleia, se cansou da rotina, nada deixou tão pouco bilhete, também depois de um tempo a gente nem quer saber, nem vira página, adquire tudo digital, uma vida instantânea puta Sonrisal, nem sei se tem mais isso, tédio sei que existe, para não me carregar de um total araã, invejo o cara que mora na calçada, vive de uns quadros que pinta ali mesmo, se alimenta do que a lanchonete oferece, aos domingos da padaria onde me encontro, comprei um trabalho dele outro dia, pode ter sido a última vez que tenha conversado de forma mis demorada com alguém, pinta com os dedos, não utiliza pincel, o povo comum passa por ele, nem percebe que ele está no caminho, alguns chutam a tinta que ele deixa na calçada enquanto medita uma face, os seus desenhos são carregados de rostos, sempre oferece uma pinga para seus semelhantes de relento, possui generosidade, tanta gente se cercando de coisas materiais e, esse individuo que nada tem reparte a pura inexistência, de que somos feitos afinal? A fila pela pelo frango assado, a torta de morango que já esteve pela hora do enterro e hoje está quase de graça, esfria o café, espio, desisto disso, pego uma Stella que não é Dalva, não se avista no céu, é amarga, porta sonhos, companheira da tarde de mais um dia, hora, mês, um fone no ouvido, um Miles, mais nada, essa gente não merece meu olhar que busca o vazio.