quarta-feira, 16 de março de 2016

A máquina de fazer sorvete e de derreter o gelo de corações



 – O homi do conserto num vem? – berra Eulália prestes a entrar em colapso perante a cachoeira de leite, açúcar e corante que escorria de sua mais nova - a tão sonhada - máquina de fazer sorvetes.
– Ele disse que o carro quebrô no mei da estrada de Piedade do Rio Grande e não vai conseguir chegar inda hoje – grita Manoel em resposta, após desligar o telefone e lamber as mãos verdes tingidas de sorvete de hortelã.
– Desse jeito nossa Alto do Rio Doce vai virá Alto do Sorvete Doce, num guento mais limpar esse chão!
O piso da cozinha já se configurava escorregadio e cada cômodo da casa tinha uma das cores do arco-íris no chão. O cachorro da família, Tutu, deliciava-se perante o doce gelado.
Pairava naquela atmosfera o desespero e o cansaço de tanto encher panelas e limpar o chão repleto da massa fria que transbordava e invadia os espaços. No fim do dia, Eulália chorava de exaustão na cozinha enquanto Manoel já havia arrancado casquinhas de pele da testa de tanto coçar a cabeça tentando arranjar uma solução para esse mar de doce. Tutu já havia desistido de lamber sorvete e se encontrava amuado no canto com aquela cara de arrependimento por ter comido tanto.
No fim daquela sexta-feira exaustiva, o menino Zeca voltava da escola e decidiu passar na casa de dona Eulália e seu Manuel, que eram os vizinhos mais rabugentos e esquecidos do bairro e o menino fazia de tudo para reverter essa situação. Zeca tinha sementes de amor no lugar do coração, e queria fazer germinar na vida dos dois velhinhos. Ao tocar a campainha, dona Eulália atendeu-o com o avental com manchas cor-de-rosa-morango e cor-de-laranja-laranja e logo resmungou:
– Qui foi, moleque? Se não veio ajudar, então não atrapaia.
Sem entender, mas com vontade de depositar as sementes de seu coração na senhora de cabelos brancos que se apresentava em sua frente, Zeca pergunta:
– O que houve dona Eulália? A senhora precisa de ajuda com alguma coisa?
Ela então contou sobre a máquina que ganhou na rifa da igrejinha e nas perturbações que esta havia lhe causado, além do desperdício de sorvete. Zeca sentiu as sementes se deslocarem e seu coração ficou tão doce quanto o sorvete que dona Eulália despejava no tanque, pois o menino gostava muito de sorvete, mas quase nunca tinha a oportunidade de ir à sorveteria, pois sua família não podia usar o dinheiro que seu pai recebia na plantação para outras coisas além do aluguel da casinha, arroz, feijão e farinha de mandioca. Ele sentiu vontade de pedir uma colherada do azul doce que a senhora levava num pote, mas sentia-se encabulado demais para isso. Eulália percebeu a vontade do menino e entregou o pote a ele em meio à resmungos (apenas para manter sua dureza aparente):
– Toma garoto, some com isso daqui, leva pr’ocê e pra tua mãe.
Zeca ficou tão contente com o presente, pois tinha em mãos o tesouro do seu doce preferido e sabia que o gelo do coração de dona Eulália aos poucos ia se derretendo igual ao azul que havia naquele recipiente entre seus dedos. Assim, o menino teve a ideia mais genial que poderia transitar em sua cabeça naquele momento: ele convidaria os meninos do orfanato para ajudarem a limpar a casa de dona Eulália, e ainda poderiam tomar sorvete, evitando que este se derramasse pelo chão da casa.
No dia seguinte, a partir das 8h da manhã, Zeca e as 44 crianças órfãs da cidade formavam uma fila na frente da casa de dona Eulália e seu Manoel.
Num primeiro momento, os idosos conhecidos como os mais rabugentos do bairro, gritaram com Zeca e disseram que não queriam um monte de crianças zanzando pela casa, e que todos fossem embora. Em meio à fúria do casal, dona Eulália viu uma menina na fila, com olhos bem arredondados e tranças no cabelo. Isso a fez lembrar de sua neta Giovana, que tinha a mesma idade e aparência daquela órfã desconhecida. Eulália pensou, pois, em como ficaria feliz se sua neta estivesse lá e daria a ela todo sorvete do mundo. Pena que a menina se mudara com os pais para Belo Horizonte, e Eulália e Manoel só podiam mobilizar e libertar um amor-de-vó/vô na Páscoa e no Natal, e ainda era maio. Abruptamente, os velhinhos puderam encontrar Giovana em cada face infantil ali presente. Assim, Eulália e Manoel foram arrebatados por um sentimento de saudade e doçura, que fez com que seus corações derretessem de vez. Então, começaram a distribuir sorvetes e sorrisos, com uma alegria mais doce que sorvete de doce de leite. 
Que bom que o homem do conserto da máquina de sorvetes não veio na sexta-feira. Depois, nem precisou mais.

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