sexta-feira, 25 de março de 2016

A missa de Domingo



Todo domingo eu sou obrigado a ir à missa. Minha mãe sempre põe um botão de flor no bolso da minha camisa. Minha irmã sempre veste um de seus vestidos novos coloridos. Eu não vejo a hora de tudo isso acabar e poder chegar em casa para o almoço (aquela típica macarronada italiana feita por vovó e vovô).
As pessoas formam fila para comer aquele pãozinho do padre, que fome que me dá, mas minha mãe diz que sou muito criança para comer e que preciso fazer primeira comunhão. O padre fala, fala, fala, e então as pessoas que estão aqui embaixo, leem os caderninhos da missa e repetem juntas umas palavras sobre espírito santo, Jesus, etecetera. O padre fala, as pessoas leem e repetem - Gloria a vosso senhor -, e então o padre fala de novo, as pessoas repetem também - Ele está no meio de nós.
Aquelas histórias, repetições, músicas, cheiro de mirra queimada, sininhos, pão-do-padre, ainda me fazem pensar na macarronada da posteridade e em Aninha, que está quatro bancos na minha frente, com seus cabelos presos de forma bonita no alto de sua cabeça.
Ai eu penso em papai-do-céu, esse velhinho que minha mãe tanto fala antes de dormir. Eu sempre rezo para ele, mas me sinto meio bobo falando sozinho. E de repente, o padre fala que deus está presente, está naquela igrejinha. Eu fico contente e me sinto lisonjeado por ele - um senhor tão atarefado (e cansado, imagino) – ter se preocupado em vir até a minha cidade em pleno domingo de manhã. Eu fico procurando-o pela igreja, tento sentir algo de diferente, mas não sinto nada.
Na saída da igreja, pergunto à minha mãe se ela conseguiu sentir deus, quando o padre falou que ele estava ali. Ela me deu um tapa na cabeça e disse para eu parar de estorvar com essas ideias. Logo depois de virar a esquina, encontrou sua comadre Joana e começaram a conversar sobre a novela do dia anterior, sobre o vestido repetido que Carmem usava na missa, sobre os olhares que João e Roberta trocavam na frente do padre (que pervertidos!), etecetera. Eu continuava ansioso pelo almoço e nem me importava mais se papai-do-céu estava ali ou não, pelo menos a missa havia terminado e eu poderia brincar e estaria livre do padre e de deus pelos próximos seis dias.

Um comentário:

  1. li esse texto para a minha mãe e ela adorou, acho que comentei contigo que era a cara dela e do povo da missa dominical

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