quarta-feira, 16 de março de 2016

A moça

era moça nova de cidade
retirante de problemas
toda deslumbrância com os olhos
nas luzes de doer vista
a amiga tinha dito e assinado
canto há de ter e tendo canto partiu
feito tarde apressada debandada
da família do pai do óbolo da mãe
foi-se bocejando ideias
nos dias de pó e acostamento
secava o passado adubava o futuro
na voz que apostava a crença a amiga dizia
haverá canto e canto não falta
a cidade parece noite clara de fogueira
remanchava os sonhos pro tempo
lento da estrada passar ligeiro
ia em deslembrança de pai e mãe
cabeça fincada na cidade
dormiria no dia acolheria a noite
haveria de aprender tal a amiga
palavras caras e gestos finos
saberia ser cidade como os pais
nunca ousaram ser pais de terra rachada
pisado primeiro passo na cidade
a vontade procurou a amiga de voz
que emudecera feito noite fria
a cidade era coisa grande
menina olhou por ajuda
cobrou entendimento das ruas
as luzes as roupas os acordos
a tantas negações desistiu o olhar
a menina com dias já passados
compreendeu a fome da cidade
seus pedidos seus serviços sua vida
os olhares baixos a cobiça por carne
a menina sentia a alma manca
tão rachada quanto a ex-terra
sentia com claridade pai e mãe
“me levo pois só eu posso
como já fiz de me levar
até essa cidade de luzes
e noite largas diria aos senhores
que me arrependo mas ainda
não o digo pois tomei coragem
de espantar a vida e sofrer menos
nesse vazio adeus meus pais”
perdoe não ter maior minúcia
foi só essa peça de carta
e esse corpo em morte
que eu sem desejar avistei

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