quarta-feira, 16 de março de 2016

Aos deuses inexistentes

Victória Monteiro

Se algo devo dizer-lhes, ainda que só pela mania de vivo de expiar a consciência, é que não me matei por ressentimento. Grande é o erro de buscar a “causa” de um suicídio, principalmente a de uma suicida inveterada. Não teve a vida comigo nenhuma dívida: vivi como quem mascasse um chiclete já sem gosto algum, só pelo ato mecânico e repetitivo da mastigação, e se agora me mato é pelo prazer do último exercício estético a meu alcance. É que gosto das coisas na medida em que coincidem com o silêncio, e nada há de tão próximo do laconismo que o ato do suicídio.

Matar-se: exercício prático de síntese. Mas, porque é ação, também o suicídio é condenável, e se você que me lê já ficou calado um dia, feliz em seu exercício de observador, sabe que não há mesmo no mundo tanto assunto e motivo de alvoroço assim. Somos Penélope tecendo e desfazendo a colcha para adiar o seu destino. O ato de mastigar...

Ter ido além do cansaço. Não querer ser protagonista de nada, sequer da própria morte. Jamais nos trilhos do metrô! Jamais numa Golden Gate! Tendo eu muito nos observado nus, ficou o mundo obsceno, mas até o que é obsceno torna-se, por sua vez, desinteressante em algum momento. Despi, então, meus dias do vício dos verbos, e pouco a pouco fui cedendo ao mutismo e à desocupação; ao laisser faire, laisser aller.

Escrevo agora para justificar-me e redimir-me perante deuses inexistentes. Que outra razão haveria? Ao mesmo tempo, se esta carta cumprisse propósitos reais, se eu pretendesse realmente matar-me agora, ela jamais existiria. Quando esta hora chegar, será tarde e meu discurso será nulo, sem a tentativa de enobrecê-la com as palavras da melhor safra: insistência de mau gosto do poeta. Não existindo eu além ou aquém da palavra escrita, a morte só se faria assim, tão urgente, em sua impossibilidade ou em sua ausência.

                                     

                                               

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