quinta-feira, 17 de março de 2016

Apêndice

No início era a porta emperrada, depois o chuveiro gelado, o disjuntor em curto, o balde d’água para a privada e as lâmpadas não trocadas. Assim foi que ela se encerrou sozinha em sua casa, acumulando problemas elétricos e neuroses hidráulicas.
            Minuciosa, analisava panos de pratos manchados e os vértices da casa. O silêncio, habitante assíduo, e o relógio da cozinha estagnado expandiam as horas naquele lugar, enquanto ela seguia catando pedras nos feijões, pois fazia questão de quebrar seus dentes durante o almoço e escorrer seus olhos junto ao macarrão.  
No tempo de um assado, engasgou com a saliva por mais de três vezes, ao tentar formar pequenos oásis em sua boca.  
Já o convívio com o bolor do teto do banheiro lhe causou micose nas ideias, gerando novas correntes de pensamento.
Com o passar dos dias e os choques neurais frequentes, não suportou o esgarçar da vida e quebrou-se. Quebrantada, toda craquelada e áspera, se espalhou pela casa qual chão de terra seca, casca de ovo triturada. A cada pedaço um microcosmo, sem volta, sem conserto, quebra-cabeça irresolúvel.




Autoria: Airá Fuentes Tacca
Tema: "O Homem do conserto não vem?"
Exercício indicado por Evandro Affonso Ferreira 

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