quinta-feira, 17 de março de 2016

Disritmia


Começou com alguma dor no peito e uma tontura. Mas não aquela quando o  vi pela primeira vez, carregando pincéis sujos de tinta verde e achando que mudaria o mundo passando política nos muros. Caio, ele me falou que se chamava. Nem aquela que senti quando segurei as mãos de minha avó já sabendo que pela última vez, porque na idade dela ninguém retornava de um coma. Era uma tontura diferente, como se bolhas finas de sabão fossem crescendo e estourassem dentro da minha cabeça. Um desconforto que começou sutil mas que foi-me minando pela constância, e eu peguei o estranho hábito de levar a mão ao peito e de massagear as têmporas com meus dedos indicadores e médios. Era um caso raro. São pequenos enfartes de escrita, o cardiologista me disse com o rosto impassível, que saía do jaleco branco. A cada palavra que você escreve, seu coração fica mais fraco, ele confirmou. Como as mulheres da minha família sofrem do coração, não achei o diagnóstico assim tão estranho, apesar do espanto. Sempre gostei de compartilhar com a árvore da qual tinha nascido, e agora nós partilhávamos o modo como se morre. Voltei rápido para a casa e entulhei os livros no armário. Tranquei tudo. Joguei fora os blocos de escrita.  Rasguei uma coletânea obscena da Hilst. Quebrei canetas.  Eu nunca avisei o Caio que não podia escrever, nem que morria a cada palavra, disse apenas que ele teve o azar de ganhar meu coração disritmado. Ele me sorria, e continuava pintando, e não entendia, nem a mim e nem à minha febre quando ele cerrava os olhos e me pedia que eu recitasse poemas. Versos inteiros me vinham em sonhos, e eu acordava suando, e mal conversava, e vivia olhando nada, até que um dia, misturando tintas, ele me perguntou por que não podia ser como aquele dia de Sol, e então eu não pude mais, o Caio continuava pintando, e enquanto ele o fazia, como um lagarto eu ia aos cantos da casa transformar os devaneios em pequenos contos ou poemas. A doença não me permitia mais romances. Então, com cada vez mais frequência, eu tinha que parar para me deitar, e o Caio, que me cuidava como um beija-flor, vinha segurar a minha mão e enxugar o suor da minha testa. Ele sempre dizia que eu estava fria, e eu sabia que ele já sabia de tudo, e ele me olhava com aqueles olhos amendoados, e eu derretia, e queria dizer-lhe que era daqueles olhos que eu gostaria de me lembrar no susto do fim. Tremi, e pensei que se fosse possível escolher uma mão na passagem escura, eu queria a mão de minha avó, de veias altas e toda pintada de sol, e enquanto escrevo esta frase, tenho a quieta certeza de que a caneta cairá das minhas mãos pela última vez

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