quinta-feira, 17 de março de 2016

Cartas de suicídios



Tenho morrido tantas vezes desde que decidir viver, que já perdi as contas de quantas cartas suicidas escrevi. Cada linha que torno pública é uma despedida de um pedaço de mim que se vai. Morre-se cada dia um pouco em um mundo onde questionar, experimentar e ser livre são criminalizados. Cada vez que olho para os lados e sinto que sou uma peça desgarrada das outras, eu morro. Mas é uma morte que me faz viva. Morro aqui, vivo ali.
Esta é uma edição ampliada e atualizada da minha primeira carta suicida. Pelo simples fato de que sobrevivi. E ao não morrer, mas quase, descobri um poder sobre a vida que poucos desconfiam possuir. Inclusive que, quanto mais se ousa viver, mais chances - literais - de lhe tirarem a vida.
Quando quase morri e optei por viver, o poder trocou de mãos. Já não foi mais minha mãe que me deu a vida. Se da primeira vez surgi talvez pelo poder de Deus, talvez pela humana concepção, agora recebi a procuração para cuidar de mim mesma. Estou viva porque quero. Porque decidi. E não quero ser tutelada. Descobri que viver é única e exclusivamente problema meu.

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