quinta-feira, 31 de março de 2016


Daquilo que se lembra

Tem aquelas coisas que se esquece, mas que não se deveria esquecer.  Como o guarda-chuva preto e pequeno que deixamos no Café. Ou histórias como a da semana passada. Eu estava no repetitivo caminho do trabalho para casa e parei para atender uma ligação. Não gosto muito disso das pessoas pararem no meio da rua para atenderem uma ligação, como se fossem responsáveis pela manutenção do eixo da Terra. Mas eu parei, e mal tinha começado a falar quando senti um tranco forte. Meu telefone caiu no chão, e quando virei assustado, sem saber o que viria, só pude ver aqueles olhos pretos e grandes. Eles pareciam saltar daquela cara suja e coberta de pelos. Você tá pisando na minha cama, ele disse, e apontou um pedaço retangular de papelão que estava no chão.  Eu fiquei ali parado. Às vezes, nas horas derradeiras, eu fico parado, e acho que isso me impede de ser herói. Ele avançou mais uma vez para mim, eu levantei meus braços em reflexo, e ele me empurrou. O suficiente para meus pés desocuparem totalmente o papelão no chão. E então ele perdeu qualquer interesse em mim. Eu primeiro quis voar em cima dele. Um mendigo sujo e extremamente mal cheiroso. Mas o que fiz foi sair de lá rápido e seguir o meu caminho. Acontece não dava mais para sair assim, andando. Então eu quis voltar. E ia fazer o que?  Pedir desculpas? Pagar um lanche? Tudo me pareceu que não cabia. Mas  acho que  fazer nada foi ainda pior. Enfim. Nem sei porque estou falando dessas coisas. Deve ser o dia difícil no escritório. Eu não tenho ideia de como fazer o banheiro do térreo funcionar com o resto da casa da Laura. Ela diz que quer algo orgânico. A vontade que tenho é de dizer que o projeto da sala dela está uma merda. E isso é bem orgânico. Enfim. O dia hoje está difícil.

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