quinta-feira, 24 de março de 2016

enquanto durmo com você fodo com ele

teus olhos encerram.
abro portas e janelas com um gesto, convite a meu amante. 
seria roberto do trabalho que vez ou outra dá carona e com a mão no câmbio quase toca minhas coxas ou seria evandro com seu bafo quente de café e os olhos arregalados de quem nunca viu um decote - não importa. 
meus botões perdem suas casas. 
invade minhas coxas a mão quente e úmida que desliza dançante, serpente esguia, ganhando meu corpo ao ritmo de sua fria respiração inconsciente. 
me diverte a lembrança de como você se vangloria de dormirmos e acordarmos sempre juntos, se soubesse... 
ao meu ouvido sussurram pecados. 
o seio rasgando, os dedos rijos, os pés dormentes, se soubesse... 
se algum dia tivesse teu nariz tocado meu grelo, se soubesse... 
se algum dia tivesse conhecido minhas entranhas... 
num espasmo encontro teu mastro, erguido ao cheiro do mar, mas o recuso. 
monto em teu rosto, quero vê-lo sentir meu gosto e elogiar meus loucos quadris, só dessa vez, você que sempre pediu que eu mexesse assim. 
suor, saliva e saudade. 
há quantos anos não o sentia. 
há quantos anos recebia em nossa cama outros prazeres, mas não hoje, hoje sou tua, entregue, sou minha. 
suor, saliva e saudade. 
escalo teu corpo, meu ventre oculta teu colo, se abrem teus olhos. 
psiu. 
não diga nada. 
espanta o sorriso em meu rosto? 
psiu. 
não diga nada. 
sinta. 
você pulsa. 
quadris, braços, garganta. 
tua voz rouca e grave. 
alcanço o travesseiro e grito cobrindo tua boca. 
treme o teu corpo, o peito perplexo, os braços convulsos, o pânico. 
treme meu corpo, o choque, o espasmo, o alívio. 
perco a postura, caio de lado. 
aprecio teu rostravesseiro, bonito, branco, carente, imóvel. descubro-o, encaro teus olhos, agora permanentemente abertos. 
do bolso do seu paletó pendurado desponta um maço azul. 
ao meu lado se oferece o cinzeiro da tua boca. 
quem sou eu pra recusar o que o céu quer que eu aceite?

Alessandra Salazar


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