quinta-feira, 24 de março de 2016

Fé no silêncio

Deus meu é o silêncio. Mas até aí não sei se ele é meu Deus ou meu Diabo. Se a gente vem parar aqui, por mais motivos injustificáveis ou até mesmo injustos que nos conduzem a este cerco, é possível que comecemos a ver umas coisinhas bem sinistras e a sentir de um jeito mais que especial, e por isso tomar a consciência igual refrigerante, isso pro bem e pro mal. Tipo Deus, digo: que mo deram nas ruas quando passei fome? Silêncio. Que mo deram na sarjeta quando roubei pra comer? Silêncio. Que mo deram nos quartos escuros quando me prostitui pra comer? Silêncio. Que mo deram nos tribunais de justiça quando matei pra comer? Silêncio. Que mo deram quando me silenciei por ser feio e sujo… mais silêncio. Em todos os lugares, em todas as esquinas, é só você olhar pra televisão com propaganda de iogurte rosa pra criança, e depois pro mendigo dançando pervertidamente com um cachorro. Silêncio. Mas e daí? Você tá na tua, e indo na tua. Dizem de um Deus dos humanos onisciente, e por isso digo, pois isso comprovo com meu mísero viver, em todo lugar que estive, e a tudo que experienciei foi o silêncio, e a isso digo tranquilamente, afirmo, como também contesto; há uma certa dúvida, para que serve Deus senão para sufocar… aliás foi o diabo que mo deixou assim. Olha só, não é o tipo de silêncio que te dá voz, é do tipo de silêncio que te esmaga. E beleza, assim, você esmagado, beleza, sempre tem quem te pise, é a vida, mas assim, naquela coisa, eu to no meu, tu tá no seu, beleza?, e vai e vem assim, e tu tá com a boca do estômago te falando, porque fome é uma coisa barulhenta que quebra qualquer silêncio e te joga como bicho em cima de tudo que se mexe, e aí você simplesmente mata um e come uma orelha, e não pra saciar uma fome biológica, nutrição e tals, mas pra te saciar como bicho, pra satisfazer uma raiva que vai crescendo no âmago do teu ser, porque diante de todo essa inquisição sombria, você quer responder, e você responde: com a boca no pão e a mão na faca e a faca no outro. E aí você tá saciado, até aí beleza, mas cada dia é um dia. O Silêncio parte de todos os lados, e não só se reproduz como se dissemina em si mesmo; aliás, praquê diabos gritar pelos de lá, se eu de cá também sofro; cada um cada um. Na fome, fio, tu não vê cara, tu vê é carne e sangue, de preferência com a primeira rasgada e a segunda espichando. Nas veredas do silêncio, a única fuga do miserável é a mordida; e eu mordi. Tou aqui hoje pra pagar. Sei o que fiz. Não sou daqueles que ficam manjadamente falando sou inocente etcetera e tals. É engraçado, desculpem… eu sei que não é pra rir, mas é engraçado. Deus e tals e essa coisa dele ajuizar e tudo, e eu quando to me sentindo do ladinho Dele só tenho vontade de ser bicho, desumanamente me consumindo. E é engraçado, porque ao mesmo tempo que me faz disso, é o jeito deles tentarem insistir que são aquilo que dizem ser, sei lá, humanos.

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