sexta-feira, 11 de março de 2016

Ímã

            Por alguma razão alguém decidiu construir lares com duas portas de entrada – que não deixam de ser duas portas de saída. Uma que dá acesso à sala de estar e outra que leva até a cozinha. Sei que existem muitas casas com muitas outras portas de entrada e saída, mas não sei o que se passa por dentro dessas outras casas. Sei o que se passa por dentro da minha casa – que é, na verdade, um apartamento.
            E não sei a razão por trás da decisão pelas portas de entradas e saídas das salas e cozinhas, mas sei que detesto entrar-sair da minha casa-apartamento pela porta da cozinha. O capacho que deseja boas-vindas está aos pés da porta da sala. O olho mágico está aos olhos da porta da sala. É ela que eu abro após um dia exaustivo. É por ela que alcanço o sofá de couro falso descascado, que me acolhe e gruda minha pele suada.
            Você, por alguma desrazão, entra-sai pela maldita porta da cozinha todas as terças-feiras como esta – assim como todos os outros dias de feira ou não-feira. O capacho não deseja; o olho mágico não vê. O sofá não acolhe. Quem te recebe é a geladeira, fria e enferrujada.
            Hoje, entretanto, a geladeira está menos fria – não menos enferrujada. Com a porta escancarada, cheia de ímãs publicitários, você coloca a mão dentro da geladeira e tira. Coloca a mão entre as prateleiras. E tira. Coloca a mão. E tira. Coloca. E tira.
            Coloca e tira mais uma vez.
            Constata que está resfriando menos que o normal – talvez tenha parado de resfriar de vez. Coloca e tira. Fecha a porta em um solavanco que faz as pequenas folhas dos calendários se moverem alguns milímetros. Calendários de meses passados, de anos passados. Nenhuma folha desta terça feira, em que você sai da cozinha e entra na sala, me ordenando "chama o homem do conserto para ver a geladeira".
           
            O apartamento ainda é locado. Os azulejos ainda são rachados. A infiltração, o mofo e o carpete ainda infiltra, mofa e carpeteia. A corrente de ar frio ainda sopra as chamas azuis da boca do fogão e gela a espinha. As janelas ainda estão presas de frente a outras janelas. Vasos de plantas esquecidas disputam um lugar ao sol. Roupas nos varais de teto.
     Varais de teto.                                                                                                   Varais de teto.
                                 Varais de teto.                                  
                                                                         Varais de teto.
            Varais de teto e suas cordinhas de nylon e suas meias dúzias de varetas paralelas onde mal cabem as meias lavadas no tanquinho sem centrífuga torcidas à mão.
            Armários empenados.
            A porta da cozinha de cor casca de ovo abre pela sua mão como toda quarta-feira. Mas, diferente dos dias anteriores, hoje a geladeira tem um capacho aos pés de sua porta. Só que não deseja boas-vindas e nem é um capacho. É um pano de chão que um dia foi uma camiseta, encharcado pelas gotas que pingam das ferrugens da geladeira, por alguma razão.
            "O homem do conserto não vem?"
            Alguns ímãs caem no chão. Uns poucos tiveram a sorte de cair sobre o capacho-pano de chão-camiseta.

            O chão está seco. O capacho da porta da geladeira – pano de chão-camiseta – balança com a corrente de ar frio, pendurado em uma vareta do varal de teto. As janelas ainda não mudaram de lugar, mas eu tranco a porta de saída da sala e empurro a chave pela fresta, nesta quinta-feira. O capacho me deseja boas-vindas e o olho mágico me vê. Um pouco de mim fica preso por um ímã da companhia de gás: "o homem do conserto veio".

– Yuri Morroni

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