sábado, 12 de março de 2016

Inércia

Há um certo humano numa calçada esperando erguido com largas pernas diante da ventania com dúvida óbvia ao que recusa a pensa-la. Aponta contra o vento o corpo e queda fitando transeuntes que lhe aparecem como silhuetas do canto de olhos perpassando por detrás de árvores se estendendo em fileiras até os confins urbanos de pontas opostas. O certo humano não se deixa ver, aliás, ignora qualquer fato que lhe lembre um rosto em sombras, a isso, logo constata, “não mo enxergariam. ” O humano olha para os pés calçados enquanto espreme o corpo em si para produzir calor. O que não surte efeito senão uma ligeira sensação de ilusão; para isso, pensa “humanos são os outros. ” Mas não se deixa levar ao pensamento, além de imagens que regurgitam desencadeando, talvez, formas de sombras que podem fazer certo sentido ao humano. O tal do ser decide se dispersar olhando para os céus, os transeuntes lho lembram abismos, e os pés a solidão. O céu, contudo, causa-lhe vertigens; é alaranjadamente azul, não há referência para alguma finitude, o que lhe espanta, pois, perdendo-se inteiramente em tal cor, desaparece; o céu lhe absorve inteiramente; sente-se insignificante. Com as mãos nos bolsos, o certo humano, tenta não mais observar objetos; aliás, existe um certo clima de seriedade em suas observações e talvez isto o esteja puxando para redemoinhos incontroláveis. O certo humano espera algo, e dependendo de como espera, talvez isto o preocupe; aliás, há de se despontar muitas outras reações ao lançar visões para sombras, pés e céus; contudo, esta resulta não só de perturbações, como também repercute mais o ruído. O humano pode recorrer a telas sintéticas para se esconder, todavia, este tal que queda com suas largas pernas, erguido, numa calçada, inerte diante da ventania, não gosta de pensar em escape; todavia, não deixa de ponderar, pelo menos em silêncio, já que a proposta é tentadora. O tal ser carrega um pensamento sobre caminhos ao qual não se desfaz da ambientação, nem mesmo do pequeno sopro que solta entre passos; “as sombras querem chegar, eu quero ir” pensa o humano. De qualquer maneira, colocando-se como julgador, existe uma sensação vergonhosa, e o humano tenta se colocar sorrateiro para não ser percebido. Vez ou outra, é de se perceber o sol brilhando, mas não por muito tempo; esbanja-se e depois volve-se para detrás das nuvens. Não há, para o humano, muita distinção, ou mais ou menos prazer estético diante dos brilhos ou do torpe cinzento, senão uma sensação de incômodo na vista. De todo jeito, o humano começa a se impacientar. Olha o pulso direito, o relógio, suspira, olha para o céu, perde-se. Esfrega as mãos nos olhos, e começa a bater o pé. A tentadora opção lampeja vez ou outra; mas ele continua no aguardo. “É que lucides é um caminho e não uma finalidade. ” Repensa, mas soa arrependido; olha para trás, e ali jaz o lar alquebrado; será a ventania? Continua soerguido contra o vento; esperando mesmo sabendo que é inútil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário