quinta-feira, 17 de março de 2016

Mãe prematura



Por Anelize Moreira

Uma, duas, três. Ouvi as suas tentativas de não me fazer carne. O seu desconsolo era impreparo.  Aos dezesseis, o intuito era dar de ventre, livrar-se do cordão umbilical que te sufocava. As suas lágrimas me mostraram que não valia a pena insistir em nascer, não por hora. Te vi juntar migalhas e pousar de casa em casa sem dar conta da sua própria vida. Desta vez não foi você que me expulsou, mas o contrário. Fechei os olhos em silêncio, descolei-me de seu útero, forcei a descida e escorreguei pelas suas entranhas. Você pegou na minha mão, senti o seu toque sutil e esse foi o nosso até breve. Perdoe-me mãe, você era prematura demais para carregar duas vidas. Além disso, quem me acendeu ainda não era o pai que escolhi. Assim fazem os nascituros, quando não é a hora, abortam do corpo de suas mães não geradas. Desculpe se nesses anos deixei você com o peito cheio de saudade e o colo vazio de incompreensão de não poder me carregar. Estamos mais próximos do reencontro, agora já esboçada, eu madrugo em seu ventre que está prestes a dar à luz em mais plena maternidade.


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