quinta-feira, 17 de março de 2016

Magda

por Bárbara Zocal da Silva


Trinta e quatro anos arrastados em desassossego, meu filho. Casei por amor, casei. Mas com os anos passei a desdenhar a alegria. No primeiro tapa, o medo, que estava na espreita, se alojou.  Ria amarelo, de dar pena. Resisti. Ou me rendi? Em casa, era um passarinho numa gaiola. Bom era sair para o trabalho. A rua me era muito mais acolhedora. Nela, distraia as angústias. Porque as angústias, meu filho, sempre vão existir. O que nos cabe é escolher qual delas queremos viver. Liberdade? Ah! Era passar pelas ruas do bairro, que conheço oh! como a palma da minha mão, cumprimentar os vizinhos, vender minhas tapiocas. Suportei sim outros beliscões, tapas e palavrórios. Mas me empurrar escada a baixo, meu filho, foi o fim. Que remate! Corri para a delegacia na mesma hora. Exame de corpo de delito. Fichei ele! Não falei nada. Levou um tempo, até que ontem a oficial de justiça veio aqui tirar seu pai de casa. Ele quis até bater na mulher, acredita? Dei uma hora pra ele pegar algumas coisas. Saiu esbravejando que eu tinha roubado tudo o que ele construiu. E eu trabalhei nesses trinta e quatro anos pra ninguém? Vocês estão todos ai, bem criados. Saiu com a roupa do corpo e com o que deu pra pegar dentro de uma mala. Agora, você vem me falar de liberdade? Como vou sair? Só de pensar – disse, passando uma das mãos na nuca –, sinto frio, meu medo escorre como suor desde esse dia. Afundada no mar, vejo o céu embaciado lá fora. Ele deu o recado: “Eu vou te matar!” Seu pai já falou. Vai me matar.
Magda abriu o papel, úmido de suor, que apertava em suas mãos, cortou quatro tiras de fita e colou-os na parede da cozinha.

LEI Nº 11.340, DE 7 DE AGOSTO DE 2006.

Nos termos do artigo 22, inciso III, da Lei n. 11.340/06, a Lei Maria da Penha, o juiz fixou, em 200 metros, a distância a ser mantida pelo agressor da vítima.


Denunciar seu pai foi meu suicídio.

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