quinta-feira, 31 de março de 2016

na espreita

Uma vez por semana me fixo nessa via, chego cedo, me preparo e fico apostos, na pressa muita gente nem me vê, tenho a impressão de que alguns nem olharam para o céu, necessito de visibilidade, não quero ser o centro das atenções mas, parte do caminho de alguns rumo ao bolso pelo menos, vivo de migalhas assim como os pombos que ficam aos meus pés e não posso embora a minha vontade seja de dar uma bica em todos eles.
Cada lugar tem o seu jeitinho, no centro além de pombos, uns caras cantando arroxa aqui e acolá com o povão ao redor, fico parado com uma vontade louca de dar um salto e gritar feito o cara barbudo com a bíblia na mão, só penso, eles podiam estar roubando, matando em vez disso ficam soltando sons quase gemidos num rebolado só.

Nessa calçada a musica é melhor, as pessoas desfilam cores principalmente as mulheres, tem uma pequena que apareceu nas últimas duas semanas, na primeira ficou debaixo do toldo, óculos escuros, telefone na mão, impaciente, fumou dois cigarros, desistiu, foi embora e nem me viu. Na segunda, tentou ficar parada no mesmo lugar, acendeu o primeiro cigarro, o dono da loja é antitabagista, assim que ela encostou levantou a lona, a minha já  estava armada só de olhar para ela, então, ela me viu, caminhou em minha direção, confesso que quase espirrei com a fumaça do cigarro naquela tarde, que graça, sussurrou fitando o poema lápide sob os meus pés, puxou uma nota de dez, jogou na caixa, se foi, caminhava linda sem ser notada, espero que hoje ela volte, desço da caixa e lhe dou um abraço.


Um comentário:

  1. Bela crônica: anais do cotidiano...
    Fiquei curioso, ela voltou?
    Forte abraço...
    Harry

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