quinta-feira, 31 de março de 2016

Talvez a queda tenha começado quando vi aqueles dedos espremidos. A mulher dormia, cabeça pendurada para a frente e pés inchados tentando escapar dos calçados que tinham uma abertura na parte da frente. Úmido de enxurrada, o couro vermelho, da cor das unhas, estrangulava a pele coberta de asperezas esbranquiçadas. Em um tranco do ônibus, um dos escarpins invadiu o corredor como uma boca repleta de dentes encavalados. Meus pés, aflitos, se encolheram na escuridão das botas.
Pela janela, vi a farmácia. Precisava descer. Apertei o botão, me esgueirei pelo corredor, pedi licença para o homem do fone de ouvido. Ele não ouviu. Cutuquei, abri passagem, desci correndo. O que deu errado? Não sei. Sempre achei que morreria de um jeito estúpido. Um escorregão no banho. Carne entalada na garganta. Caí. Enquanto caía tive tempo de pensar na bolsa aberta que ia antes de mim e jorrava lenços sujos no asfalto molhado, no gerente que me esperava para o plantão, na pena de acabar assim, sozinha em uma terça-feira chuvosa. Apaguei. Quando abri os olhos, o pé boca despudorado sorria para mim.

Mariana Weber

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