quarta-feira, 30 de março de 2016

Noite pálida

A noite desvencilha lampejos luminosos que se ofuscam no véu de sujeira humana. Casal de amigos conversa, sentados sobre a calçada, tentam olhar o céu, queriam ver as estrelas… um deles fala: “Não aguento mais. Dez anos de amizade, e você nem tenta ser normal, não dá mais. ” E eu respondo: “Nem eu me aguento mais... ” Da ponta extrema da rua, um miserável vem vindo, zanza por entre os lixos. Horror vacui. Teme-se o vazio, mas o vazio não nos teme, traga-nos. Que podem os homens contra a morte a não ser teme-la? A história da criatura maltrapilha é a imagem destoante dos sonhos de um futuro esquecido – nele, todas as ilusões se estilhaçam: resta o homem, o miserável. O medo encarnado na consciência: inevitável é o desfecho e a solidão. Não se aguentar mais é se desvencilhar para o vazio. Apesar do pensamento, o suicídio não é citado além da casual ironia invocada para amigos. Ele não me responde, e eu nem posso me importar. O miserável se aproxima para examinar e pedir esmola, apresenta-se como um show bizarro – é o artista do circo que é a humanidade. Não é possível entende-lo, fala outro idioma, é outro, e tão outro, que quase desaparece nas massas do concreto e do asfalto urbano. Eu não quero enxerga-lo, é que ele sou eu e eu quero que ele vá embora. Não conseguindo nada, vai-se, some entre as sombras da madrugada. O amigo não fala mais nada, põe-se a olhar as cercas revestindo as casas para segurança. Os cosmos se apagam entre a névoa tóxica que exalam os homens, e a tudo que o olhar se volta sem se enganar é a miséria; nessas horas de desamparo: teme-se menos o vácuo. Recito Holderlin para meu amigo: “O homem, quando sonha, é um deus, quando reflete, é um mendigo”. Contudo, o céu torpe de escuridões faz desaparecer todos os sonhos restantes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário