quinta-feira, 17 de março de 2016

Carta de um suicida sereno (ou: Notas imaginárias sobre meu futuro velório)



Carta de um suicida sereno (ou: Notas imaginárias sobre meu futuro velório)

Não escrevo um choramingo pré-óbito. Tão pouco rogo por carpideiras sinceras em meu velório. Matei-me e não devo nenhuma explicação a ninguém.
A única mágoa é a de não assistir o derradeiro ato da minha farsa: eu, elegante em terno de madeira barata, os familiares chorosos, os ébrios de seriedade ou os realmente ébrios, - os que contam piadas do lado de fora da câmara e outros poucos que me canonizam - as tias que suspiram “Era tão jovem, coitado!” e, claro, os curiosos. Ah, solenidade imbecil! O luto se esvai, os sérios seguem sérios, os bêbados talvez se recordarão de mim entre os tristes copos futuros e as tias se converterão em avós católicas a contar “o causo” a fim de alertar seus netos assustadiços sobre o pecado de Saul.
O que resta disso? Nada. Não flerto com sua filosofia, sua religião ou sua moral. Todas elas tentam rechear com a cal dos pensamentos elevados um oco ancestral e indelével que, em seu abismo particular, faz ecoar aquela voz que afirma a nulidade da vida. Você a amordaça e segue: acorda cedo, trabalha, compra umas porcarias, come e dorme, não é mesmo? O que me difere de você é ouvir essa voz e canta-la sinceramente, simples assim.
Meu velório - e disso eu sei mesmo sem estar presente – é um alívio para sua boa alma que, apesar de qualquer belo sentimento de compaixão e empatia, se alivia com a dor dos familiares do defunto. Goza, estremecendo entre medo, vergonha e júbilo, do fato que não foi a sua vez e nem a dos seus. Não o culpo, é demasiadamente humano. Apenas não perca seu tempo me julgando ou investigando meus motivos, pois em plenas faculdades mentais, ofereci serenamente minha última moeda ao barqueiro.

Victor Cedro

               

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