sexta-feira, 11 de março de 2016

o cara do conserto

Sob a alça azul do vestido, aspas numa tatuagem sobre a pele morena, o cara do sax continuou com o seu ganha pão na boca, virou o pescoço para observar a sua caminhada tranquila, o vento soprou leve numa preguiça quase domingueira em pleno sábado, ela nem aí para ele, tanto que nem teve o trabalho de usar as mãos para segurar a saia como fazem grande parte das mulheres, imaginando uma ventania que procura desarmonizar uma obra em construção. Cena para ser filmada, é necessário escrever sobre isso, aquele tipo de situação que todos imaginam completa ficção, principalmente nesses dias carregados de exclamações e interrogações. Muito bom esse nada fazer, ocupar a cabeça de vazio, deslizar inerte encostado num velho muro, tenho diversas obrigações para cumprir, nada filé como passear com o cachorro aliás, tenho notado que os cães estão a cada dia mais gente, vou dar um desbunde, acender o meu charuto e, pela fumaça que se dissipa em meio aos passantes, puxar o velho bloco de papel do bolso para rabiscar a paisagem, o homem do conserto vai faltar no dia de hoje, a urgência das palavras é maior do que a manutenção de qualquer parafuseta,


Valmir 

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