sexta-feira, 11 de março de 2016

O homem do conserto não vem?

Ele precisava chegar, para eu sair. Não tanto para usar sua técnica em arrumar máquinas de lavar: eu aguardava a autoridade moral daquele homem do conserto, com "s", que mais parece o senhor que rege a orquestra, com "c", usando o olhar imponente. Sabia que, assim que eu apertasse o botão e soltasse a frase mágica "Tá vendo? Não funciona!", ela imediatamente se torceria atrás de água, como um paulista dos anos 2000. Eu ficaria constrangida, soltaria a célebre frase sobre como a vida é irônica, e ele iria embora com o valor da visita, sem graxa nas mãos.
A campainha toca. Estou atrasada, mas vai ser rápido. Ela só precisa de pressão moral. O homem entra, eu solto a frase. Aperto o botão. Nada acontece. O relógio, o olhar preocupado do homem, o relógio.
Vai demorar, ele me avisa. Parece que foi o motor. O coração da minha máquina parou de bater. Nestes casos, autoridade moral de nada adianta contra um coração de ferro partido.
Ligo para meu cliente, desmarco a reunião. Explico que, regida pelo maestro Murphy, a orquestra da minha vida segue a regra do destino: se algo tiver que dar errado, dará. Ou melhor: deu.

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