quarta-feira, 16 de março de 2016

O morto respira

Há um cadáver pútrido ao meu lado; estende-se dramaticamente espatifado no chão. Na escrivaninha – ao lado do espalhafatoso corpo frio – uma típica carta de suicídio de quem não aguenta mais viver porque o cachorro morreu. Não é para menos a citação: “Se te queres matar porque não te queres matar”…. Quais os critérios para julgar a carta, não é uma pergunta que eu faria. O mortinho caído ali, deu até de escorrer espuma pela boca. Nos momentos finais acendeu um fino, puxou um tiro numa colherzinha, e enquanto isso, chapado, deveria compor esse belo conjunto de palavras, não menos nem mais… talvez. Eu deveria acrescentar um certo pavor que estava borbulhando em seu ventre, ele não sabe o que vai fazer, mas vai fazer porque ele tem essa certeza. Não é o tipo de certeza que enlouquece o homem, é do tipo de certeza vaga: mar de neblina, asfixiado pela densidade dos próprios sonhos, não consegue escapar de si mesmo. Julgo eu, ainda assim: mas que não há tantos outros que encenam peças…. Não culpo os que possuem certeza, só os mais suscetíveis ao niilismo a possuem; certeza fria como a morte. Ah, a seriedade. Este pútrido corpo viveu de certezas, mas para as quais os olhos não foram feitos; caiu rapidamente, foi só o terror confirmar o que acreditara, e então levou-se para não se dar mais. Não é a única certeza a morte, e isso pergunto retoricamente. Não é fácil ser um verme, tem gente que não aguenta admitir isso, ter consciência disso; por isso ainda continuo com a ideia de não culpar aqueles que encenam peças. O pútrido cadáver ainda flatula vez ou outra; apesar de morto, e já fedendo, é um defunto fresco. Fará falta, pergunto-me, pois aí me encontro, é aliás, mais uma pergunta óbvia que não merece atenção senão o momento ao qual veio; uma questão sentimental de medo, um esforço de apego, e um combate ao desamparo. A vida é leve, e às vezes, acho que também não vou aguentar. Não há motivos concretos para se prender a algo tão vago; a ideia de vida é a ideia de certeza, e por essa razão é morbidamente fantasmagórica. Mas viver é respirar, e eu vou jogando ar fora.

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