quarta-feira, 16 de março de 2016

Post Scriptum

Querido Papai, querida Mamãe,

Sentem-se e leiam.
(um chá de camomila nunca é demais... uma pena a Rosa não vir hoje).
Finalmente temos alguns minutos pra conversar:

Devolvo a vocês o meu corpo.
Que nunca chegou a ser mesmo meu.
O retalho por fora
assim como vocês o retalharam por dentro.

Desculpe-me fazê-lo na sala de jantar.
As manchas de sangue custam a sair.
Mas não deixem de fotografar e contar pra toda família.
Finalmente o bibelô de vocês
fez algo realmente notável!

Nunca tive medo de morrer.
Tenho medo é de seguir vivendo.
Medo de um dia me olhar no espelho e enxergar vocês.
Medo de viver num mundo de aparências,
conveniências,
novela das seis.

Não viverei pra ser genial, engenhoso, engenheiro.
Não viverei...
Se não posso construir minha vida,
construo sim minha morte!
Se queriam me ver doutor,
ajo agora como doutor de mim mesmo.

Vou-me cedo.
Quase sem ter chegado.
Viro a chave duas vezes
e parto sem olhar pra trás.

Viver dói.
Viver cansa.
Viver dá câncer.
Me autoproclamo inadaptado à vida!

Guardem esta carta. 
E leiam-na. 
Leiam-na até decorá-la. 
E vejam na podridão que há em cada linha
o reflexo da podridão que há em vocês.


Com amor, eu.

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