quinta-feira, 31 de março de 2016


Rorschach

O salão era apertado, barulhento e de cor laranja, laranja dá fome, nada nessa merda é à toa, pensou. O aniversário do seu filho era hoje, sete anos, o garoto amava frango, frito, assado, no palito, empanado... então escolheram seu lugar favorito para comemorar, um fast-food-cocoricó
O cheiro de gordura impregnante só não era pior do que a cara dos atendentes cansados, mal pagos e mal alimentados, um deles parecia a beira das lágrimas e a outra se roçava nele sempre que fazia um pedido, coisas que só ele parecia notar. Sua esposa estava animada, conversando com suas amigas do trabalho, em especial com Maristela com quem se dava bem.
Maristela, que delícia de mulher, pensou engolindo a bunda da coxinha.

- Ricardo olha o seu filho ali brigando! O júnior tá chorando! Vai ver o que está acontecendo, por favor!

Ele, que agora mastigava o salgado saboreando a bunda de Maristela acordou do transe quando uma coxinha passou voando e se espatifou na parede a sua frente, frango, catupiry e ketchup escorregaram até o chão, as crianças gargalharam empurrando umas às outras e Ricardo olhou fixamente aquela massa amarela no chão.
Os fiapos de frango e catupiry lhe pareciam agora outra coisa, pareciam os cabelos caracóis dourados da cabeça de seu velho pai, agora esmagada e espalhada pelo chão, ketchup pra todo lado, ketchup nas mãos.  Aos poucos a massa foi mudando, começou a parecer seus próprios cachos, castanhos, levou as mãos à cabeça lisa como quem bagunça os cabelos, na faculdade eram tão fartos, lembrou de seu apelido…cazuzinha... “ Ô cazuzinha bola aí uma fininha”.
Pela terceira vez a massa mudou de forma, dessa vez parecia os pentelhos loiros de Maristela abrindo o mar vermelho e afogando tudo ao redor, ketchup pra todo lado, ketchup nas mãos!! Sorriu.

- Ricaaardo!! O que você tá fazendo assim parado?? Limpa essa sujeira antes que alguém escorregue, quantas vezes eu tenho que falar? Você não tá me ouvindo??

Olhou para a mulher ainda com os restos da coxinha na mão. Não que não houvesse Amor, o tinha, o problema era todo o resto, o problema era a coxinha.

Marina Gomes

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