quinta-feira, 24 de março de 2016

(sem título) exercício Deus


À frente da matilha ela está, mais uma vez, de tetas largas e murchas, cheias de saudade de seus filhotes.
(É que guarda com mais cautela seus anjinhos no estômago.)

Ela me avistou ao longe e logo impulsionou um galope e depois se sentou quente aos meus pés. Me abaixei para ver melhor sua fuça e beijar-lhe as patas.

Seus caninos amolados carregavam consigo um fêmur, que me ofereceu feito presente. Limpei seus beiços ensanguentados e ela me lambeu os dedos. Irmanadas, lagarteamos ao sol da tarde. Ela me contou sobre suas últimas viagens, as paisagens e sobre as almas que carregou para o outro lado. Perguntei se havia algum recado de meu pai. Ela se esquivou, encolheu seu rabo e pôs-se a rodear.  Corri, segurei sua cara e a obriguei. Ela ganiu “Uma filha? Não há. Ele negou por três vezes, foi sim”.  Disse isso? Me abandona entre os homens assim desnaturado? Pois diga que vou ser avulsa e vai se arrepender de ter me feito. Me desculpe, não quis te machucar, bebê, venha aqui, me perdoa.

A cadela volta desconfiada, ofereço o peito e ela se aconchega em meu colo e deitamos juntas novamente. Ela se alimenta pequena e ficamos por ali, como podíamos, filhas e mães. Cochicho para que retorne uma mensagem a Ele: Que se não há filha, Ele também não existe.

A matilha uiva a chamando. Suas orelhas sobem atentas.


Jogo o fêmur adiante, ela salta, o abocanha e vai.

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