terça-feira, 15 de março de 2016

Tema: O Homem do Conserto Não Vem?

            Plic plic plic. Ângela abre os olhos e logo sente o cheiro fétido de água podre caindo. Mais um dia e a torneira dando problema. Ainda se fosse água limpa. Mas não, tinha de aguentar o barulho incessante dos pingos estridentes juntamente do odor quente de esgoto. Levantou, coçou os olhos e tentou se acalmar. O homem do conserto logo devia chegar. Plic plic plic. Como era mesmo seu nome? Só se lembrava das vestes sempre brancas e do olhar de preocupação. Engraçado, seu rosto era tão familiar. Às vezes vinha junto de uma assistente, é verdade. A lembrança da moça trazia serenidade a Ângela. Plic plic plic. Deixa pra lá, até que não é assim tão irritante. Essas paredes brancas traziam mesmo uma sensação de calmaria. Mas a janela era bastante pequena. Conseguia ver apenas algumas nuvens que pareciam tão inquietas quanto a água que pingava. Sem parar. Plic plic plic.

            Os ponteiros giravam cada vez mais rápidos, fazendo com que os minutos fossem agora segundos. Isso fazia com que as horas, consequentemente, se tornassem minutos? Ângela já estava impaciente, o homem-do-conserto deveria estar lá. Plic plic plic... Aquilo estava passando dos limites. No ar que inundava o quarto, pairava uma névoa de podridão. Era possível ver as partículas carregadas de sujeira e raiva em cada pedaço daquele cômodo pequeno. E o barulho, ah, o barulho ficava cada vez mais alto e mais veloz, assim como o tempo que rodava no relógio da parede. PLIC PLIC PLIC.

            Podia tentar fazer um escândalo. Quem sabe sua voz não chegaria naquele que deveria salvá-la? Encheu os pulmões de ar – esforçando-se para não se asfixiar naquela atmosfera tóxica – e berrou. Socorro!, gritava. PLIC PLIC PLIC. O barulho dos pingos parecia tentar acobertá-la. Socor... PLIC PLIC PLIC. Ninguém poderia ouvi-la se aquela torneira não parasse de gritar. Resolveu encarar o problema de frente. No banheiro, segurou o objeto na pia e puxou com toda a sua força. Plic plic plic. Arrancou chumaços de cabelo, tentando colocá-los no buraco. Plic plic plic. Tirou o avental que usava e o amarrou em volta da torneira. Plic plic plic.

            De repente, uma picada. Uma dor aguda em seu braço. No auge do urro que deu, uma sensação de calma. Os olhos ficaram pesados. Será que isso aqui é o que eles chamam de morte? O corpo mole, a visão turva. Plic... Plic... Plic... O barulho estava cada vez mais longe. Agora, ele não poderia mais atrapalhá-la. E cada vez mais, Ângela se tornava maior do que aquela torneira.

            - Anota aí, Haloperidol injetável, 5mg/mL.


            E saiu o homem do conserto.

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