segunda-feira, 28 de março de 2016

Um encontro sóbrio

Victória Monteiro

                Eu poderia mentir e dizer que estou bem e que cheguei não faz nem cinco minutos. Que – imagina! – eu também tive um imprevisto. Poderia disfarçar a mão suada e as visitas constantes à tela medíocre do celular; fingir um ofício. Mas estou aqui há trinta e cinco, trinta e cinco minutos espreitando para saber de onde você me olhava e ria: idiota esperando e ardendo. Sua demora me custou meio maço, não reclame depois se eu morrer mais cedo.
                O que se passa? Não se passa nada, não. Aliás, por que veio tão bem arrumada? Você deveria saber que meu interesse pelas pessoas acaba no flerte. Terminaríamos casal sem repertório; de mãos dadas na rua, mas desconfortáveis à mesa. O que se passa? Nada. Passou só um senhor pedindo esmolas, mas era cego e eu não dei. Esmola sem o brilho de retribuição nos olhos não tem graça. Depois passou mais outro, que pedia que alguém lhe pagasse um almoço: era seu aniversário. Este me convenceu, mas eu lhe disse que parasse de gritar aquilo, para o que ninguém dava a mínima, que suas pernas pela metade e a pústula grande no nariz já deveriam bastar.
                Há pouco tempo cruzei um casal e seu filho, que numa distração soltou o balão que segurava. O casal e mais dois transeuntes próximos consolaram o menino, já esquecido do balão, que irrompeu em choro, assustado pelo amparo excessivo. Há pouco também uma procissão, que seguia o rastro de um caminhão de lixo, passou deixando um cheiro ainda pior. Consegue imaginar a vida o tempo todo dominada por este cheiro? Não consegue, eu bem o sei... Este seu hálito de boca recém higienizada não deixa mentir.
                Agora sabe o quanto custou me ter deixado esperando à beira da catástrofe, e eu esgoto o assunto deste encontro. Um bom resto de dia. Agradeço o sorriso anagramático, que foi de simpático a indignado nestes belos dentes brancos e falsos, que por sinal estão manchados de batom.

Nenhum comentário:

Postar um comentário