quinta-feira, 14 de abril de 2016

AIRÁ


Enigma, sem pronúncia ou escrita correta que soe familiar a alguém que não eu.

Nome de orixá. Se eu tivesse um nome tupi como o de minha irmã seria mais fácil de explicar. Será? Respiro fundo toda vez que tenho. Às vezes acho que nem sei bem o que significa. Quando criança meus pais diziam que era nome de uma deusa africana e eu repetia isso com orgulho. Provavelmente tenham simplificado, ou eu que entendia desse jeito e tudo bem.

Pratico o exercício diário de tornar banal o sagrado toda vez que olho para o RG, o cartão de crédito, a conta de luz, uma lista qualquer. Talvez por isso nunca tenha levado religião tão a sério. Será? Quis me batizar aos dez anos e meu padrinho que me nomeou estava na igreja vestindo suas meias rosas. Ainda pequena, assistia canal evangélico por pura falta do que fazer, tive medo do apocalipse, tive medo de ser médium, discutia a não existência de deus com Testemunhas de Jeová e já senti muita culpa e rasguei a bíblia também. Jovem, fumava maconha no papel do livro sagrado e comia carne em sexta-feira da Paixão por simples amor à blasfêmia. Mas hoje só rezo quando sinto medo mesmo, porque faz parte do meu ceticismo canalha.
Mentira, acredito em muita coisa. E em nada disso, claro.
Inconstante, sou um equilíbrio precário, extracotidiano, equilíbrio de luxo.

Meu nome é uma espécie de redoma sacra que circunscreve meu caos.

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