quinta-feira, 28 de abril de 2016

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há pombas em debandada
e os edifícios mais sólidos permanecem graves
a hemorragia ainda jorra

onde está a raiz do mal?
onde está a faca necessária?

efeitos podem atuar sobre as causas?

as pombas alçam voo
e do inferno é içada a natureza humana
suas razões suas pátrias
uma a uma
erguidas como ouro

desmancham-se aos seus pés
como seguidores a compartilhar
do mesmo ranço

há bandeiras e animais
marcha e coro
a toada permanece

as pombas não olham para trás
deixam no chão os intrépidos
os corados de luto e raiva

o que eles bradam o vento leva e não permite
que haja resposta

a moeda de troca
usurpada
não é mais tão densa
é membro sem tronco e peso

a rosa dos ventos aponta para mortes lentas
o isolamento é dos sentidos
mas há muitos espelhos ainda

já foram ao inferno
agora do céu arrancam um anjo-arrastado
irão depená-lo
cultuarão sua santidade
clamarão a trombeta e o anúncio do apocalipse
que se revelem as trevas exteriores!
dentes já rangem e há choro secos e inundados também

a desmedida do pedido
as engrenagens expostas
culto
          culto
                    culto
há resistentes bocejos
alguns cuspes estão guardados
há frestas suficientes a serem preenchidas
com tantas palavras há de ter aquelas
que prestem bons serviços
preencham genealogias
sejam quais forem

as pombas permanecem em voo
não anseiam terras ramos ou mãos erguidas
rumam a um voo eterno
a debandada é de fim
quem possui asas de fato
sinta!

as pombas voaram
e não deixaram rastos
os impossíveis de voo permanecem telúricos

as pombas
apenas anunciaram a aurora negra

as pombas em debandada
...partem sem volta

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