quarta-feira, 6 de abril de 2016

Confesso que nasci



Confesso que nasci. Contrariado, curioso, constrangido e calado; ainda que se conte em mitologia familiar que por essa razão me bateram na bunda pela primeira vez. Há ainda outras mil histórias mitológicas dessa natureza antes que eu começasse a inventar minhas próprias memórias.
Memórias de escola, por exemplo, como aquela de ser um fracasso em desenho por não distinguir o laranja do vermelho. Ou aquela outra: frequentemente cortar os cantos dos dedos da mão trêmula com auxílio da tesoura, objeto que deixei de usar definitivamente ao longo da vida.
Só então veio a palavra. No início era verbo? Não, era meu nome. Então comecei a interrogar o meu nome. Por não achar a resposta, busquei na mitologia familiar: “Meu filho vai ter nome santo”, e eu nem gosto tanto assim dessa música. “Encobre o nome composto”, talvez você saiba como é se evita dizer seu nome completo em voz alta quando o contexto pede, entrega dissimuladamente o RG ao solicitante e emudece; amiúde abrevia o nome também. Não houve nem o consolo de ser Victor Hugo.
Uns dicionários dizem “vencedor”, mas se não houvesse a perda não reconheceria o significado do vencer. Julguei paradoxal e muito prepotente. Perco muito melhor.
Uma ocasião de mitologia familiar me revelou à boca miúda que minha concepção se deu numa vídeo-locadora. Melhor assim, prefiro rastrear em meu nome um “que”, ainda que falso, de Don Vito Corleone.


Victor Cedro 

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