domingo, 24 de abril de 2016

Experimente

Éramos duas com as mãos correndo aos corpos. Éramos duas redescobrindo a biologia simples. E o que observávamos de nossos peitos e gargantas formou-se convite que faço agora: falar com a mão do outro no pescoço. Sentir a pulsação do outro no peito. Respirar enquanto o outro aspira pelas narinas.

Para tanto é necessário ter tato, ter o outro e ter o tempo mínimo para ter tato no outro. Sendo o último reconhecidamente o mais difícil, digo desde já os resultados desse experimento: a pulsação, que sinto em nós, sempre parece mais forte em mim. Já a vibração no pescoço enquanto o outro fala é mais forte neste do que comigo. E a respiração iguala-se diante do toque.

Mas o que há de tão importante nessas regras, que inibem de tão próximas que estiveram e de tão ignoradas que foram por nós? Pelo tato, o outro e o tempo, a observação escassa que concluí foi a de que ouvimos mais a nossa pulsação porque nos importa mais o próprio coração. Já a tremulação na garganta da voz sempre parece maior para calarmos mais diante de diferente voz. E a respiração? Lembrete de que, mesmo sem o tato, o tempo e o outro, estamos todos igualmente mortos-vivos até segunda ordem.

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