sexta-feira, 29 de abril de 2016

Furos


No primeiro teto branco
não havia sequer bocal
e nas paredes também brancas
qualquer furo era uma dispendiosa contravenção.
O segundo teto branco
tinha paredes salmão e janelas marrons.
Certamente condenável para o feng shui,
elas jorravam calor, que rima com dor
e com as janelas pretas antirruído
que pelo menor sentido,
ao serem fechadas na vertical,
asseguravam o silêncio.
O fora do dentro
e o dentro do fora.
Nada se ouvia
nem paredes,
nem dores,
nem medos,
nem corações,
nem.
O terceiro teto branco
harmonizava com os tacos de madeira lustrosos do chão.
Nele o vento corria,
respirávamos a ráfia, a espada de São Jorge e eu.
Respiramos tanto dentro dele
que o próprio dragão me convidou a voar
segurando em seu rabo.
Viver sob o teto não fez mais sentido,
pois a melhor vista da lua, me ensinou o dragão,
é vista da rua.
Mais tetos brancos vieram.
Dois – os dos outros.
Num deles, o teto,
o carpete cinza,
as redes das
janelas e os
velhos
armá-
rios
pla-
ne-
já-
dos
su
fo
cavam.
Os seres mais vivos dali eram os cupins.
Tinham alma.
Noutro, o teto e os lustres art déco
Harmonizavam com
os tacos,
o futon vermelho,
o abajur de chão rococó e
o divã de terciopelo rosa-chá-verde-musgo-marrom-poeira
Tudo muito admirável!
Porém não havia detergente neutro e sabão de coco
que limpasse toda a poeira
dos corações imundos e sovinas que ali habitavam.
Uma porta-de-madeira-maciça-anos-50-arrombada
materializou o adeus.
Nesse teto, nada mais-valia que os objetos.
As rudezas tornaram tudo desconfiança.
“Um teto pra chamar de seu”.
Olho pra cima
e vejo um teto branco.
Um novo teto.
O primeiro passo foi cobrir as paredes salmão,
que pode ser karma-n ou peixe.
Por mares nunca dantes navegados,
vejo tetos brancos, janelas brancas e paredes brancas.
Nelas são projetados feixes de luz verde.
Me descobri
silêncio                      
silêncio            silêncio           
silêncio            silêncio            silêncio           
silêncio            silêncio            silêncio            silêncio           
silêncio            silêncio            silêncio            silêncio            silêncio           
silêncio            silêncio            silêncio            silêncio            silêncio        silêncio           
“Uma porta fechada é uma porta fechada”.
Penumbra, mirra, fumaça e memórias.
Nas paredes há penas, peles, papeis,
madeira e sisal.
Os furos que faço no agora.

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