quinta-feira, 14 de abril de 2016

Helena


No espelho, vulgar, suada, lembro da avó ninfa, braços de véus, olhos de mundo inteiro, outro mundo, mundo que gira todo seu. O palco, a luz, a música que deixa de existir para abrir espaços tempos para ela. Minha avó pequena gigante dançando para mim. Não. Não minha avó. Helena, inteira, forte, solta, elástica. Depois do aplauso, o abraço encharcado. Pingos azedos tão doces… Cheiro terno de mofo, gato, briga, gente, afeto. E então, um dia, o corpo dobrado. Então, um dia, o corpo nada. Na cama, um vão amarrado furado flácido, sem músculos ossos vontades. Dentro do vão, ela? Vó passarinho fraco, encolhido na palma, tremendo, sem voar, piar, olhar. Depois, espasmos, engulhos, delírios. Suspiro.

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