quarta-feira, 27 de abril de 2016

Lodo



Quando acordei, nasci outra. Como se o choro clichê sob o chuveiro tivesse apagado traços que, durante a madrugada, algum sacana sem talento refez. Ou como se as horas de sono tivessem desmantelado adornos. Meu olhar de ressaca escondia um buraco sem oceano. As sobrancelhas cansaram de simular desafios. Os dentes rangidos perderam o corte.
Sobrou uma versão embotada, ou enxuta, de mim. Menor e mais pesada. O que não significa densa. Caminha vacilante. Os olhares que antes me atiçavam agora querem me estraçalhar. Rasgariam minha carne barata com o pouco caso da adolescente que masca chiclete diante de mim no assento do trem. Eu poderia desistir. Assumir a derrota. Ou construir um mundo sobre este mundo. Ruas, casas, parques e comércios que soterrassem a arquitetura duvidosa, os terrenos baldios, as bugigangas plásticas das lojas de descontos, os moinhos abandonados, as lanchonetes fedendo a gordura velha. Mas o lodo continuaria ali. Um dia, brotaria nos gramados, contaminaria a água de beber, retornaria pelos encanamentos e, para horror das donas-de-casa, empestearia os banheiros perfumados por sachês. 
Não quero tanto ódio. Por isso afundo mais. Ele me chama e eu vou. Bato à porta, espero. Dos escrotos, o menor. Mostro os dentes quando ele abre.

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