quinta-feira, 28 de abril de 2016

Na linguagem do amor



Falo como se buscasse aprender outro idioma em língua bem viva, sem volteios nem intenções escondidas, falo agora com a pressa de quem foge da morte, da sorte, do deixe estar, por assim dizer, do vir a ser. Estalo a boca articulando suave no arrepio aconchegante de um sol de manhã gelada para dizer que ontem sorri com um senhor qualquer e que ainda não desconfiei de ninguém por hoje, que me olhei e vi algum brilho de algum tempo que me lembrou quem eu sou e o que não quero ser.
Me acompanha agora, enquanto falo, esse chá de camomila que, enquanto tomo, toma a forma daquele pequeno travesseirozinho bordado cheio de abraços que coletei pela vida.
Essa linguagem que falo e persigo um tanto exausta, um tanto nova, um tanto medo, um tanto raiva, um tanto de tanto mais um tanto de coisa que nem sei, é da mesma essência das poesias que rabisquei nas paredes de um dos quartos que tive.
Mas por que me esqueceria dessa língua que um dia inventei para sobreviver e que agora parece criptografia, enigma, nó na garganta?

O que ninguém me disse, talvez porque já tenham esquecido também, é que depois das palavras infantis e da cartilha, eu ainda teria que reaprender a falar por tantas vezes mais. 

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