quinta-feira, 7 de abril de 2016

Nasceu, quem é?
Leila Bomfim
Um nome que não se liga à coisa.  Primeiro veio o nome, depois o corpo.  Longo tempo de gestação nasceu idoso, estranho em sua silhueta disforme. À bem da verdade não se sabe se nasceu mesmo, se lhe foi dado a luz ou se foi só expelido. Ou estará em formação?
Assim se vê: no lugar dos pés, pernas minúsculas, depois dentes seguido de tronco enorme grudado nos ombros, antebraços, mais dentes e, no topo, braços enrolados como se fossem antenas. Não tem cabeça, pelo menos do jeito que se conhece como tal. O que marca a figura é o peito assombroso. Não há harmonia nem equilíbrio, as pernas miúdas desafiam a lei da gravidade se tentar ficar em pé. Olhado em seu conjunto, assemelha-se a um alien.
Mas, contemplado em suas partes, sem ânsia de identificar por semelhança, é algo que intriga. Cada uma delas, notadas separadamente, dá ares de querer expressar alguma coisa.  Os dentes arredondados e juntinhos figuram um ensaio de sorriso, porém um sorriso preso de quem não sabe se comunicar, e assusta quando se aproxima.  O peito imenso parece guardar coração avantajado e pulmão cheio de ar.  Não inspira, não expira, pelo menos o tanto que seu porte exigiria. Inflado mostra que tá querendo fazer alguma coisa, como o atleta que se encheu de ar para dar a largada, mas ainda não saiu do lugar.  E estes braços enrolados à modo de antenas? São próprios para agarrar, abraçar, envolver.  Não conseguem captar, dado que a cabeça não se formou.
Atinadas em seu tempo, no alvorecer de seus dias, prenhes de expressão, as partes mostram vontade, mas carecem de representação, como diz o filósofo. É preciso ligar a coisa ao nome.


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