quinta-feira, 14 de abril de 2016


O homem de seu corpo não vem?

A luz apagada. Não existe mais corpo. Tudo é fluido. Tudo é música. Não existe mais corpo.  Tronco que desce a correnteza, membros que enroscam na margem, ventre, semeia o vento, os pés na areia, um dançar contínuo, de dois corpos sem rumo, membros que se misturam, sexos que se fundem, a música, o gozo fluído, derrama pelo corpo, tronco sobre tronco, o galgar da carruagem, seios que se debruçam, até que a escuridão dissipe e releve na manhã duas harpas cansadas em desarranjo.

Laços de ternura

Ivan fala pelos anéis, tem os olhos cândidos, os ombros revelados pela regata, tem o falar miúdo, sobrancelhas que se amuam, conta que não teria ternura por mim.

Cíntia banha-se do frescor da manhã, tem o frescor no corpo, escapa pelas minhas mãos, a beleza escorregadia, o leite dos olhos, os cílios rompantes, me diz com doçura:

- Você pode mais, poeta.

Ternura, palavra difícil.

Eu tenho ternura por Ivan e Cíntia, nessa manhã arrebentada, o jardim parece entrar na sala, a luminosidade almoça nossas vistas, a ternura, a entrega, teríamos um futuro tão terno, se não nos entregássemos à intolerância, estamos os três estarrecidos, a ternura sumiu, talvez do que tenha ficado terno, só mesmo a puída veste do mendigo
que evapora na Paulista.

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