quarta-feira, 6 de abril de 2016

O homem do concerto não vem

O homem do concerto não vem

“No hay banda, no hay concierto.”
Mulholland Drive

     Soergueu-se da escrivaninha e não soube ao certo se continuava a dormir, se havia acordado ou se estava em algo de intermédio. Fitou o espelho à esquerda que devolvia às suas retinas embaçadas uma imagem disforme, mas nem tanto, pois era possível ver o vinco profundo que a caneta sobre a qual havia dormido fez em sua fronte. Esfregou os olhos e voltou sonolento à tarefa que havia incumbido a si mesmo: escreveria um conto sobre um músico. Como que para dar algum alento ao papel branco, escreveu em negrito um título genérico “O homem do concerto não vem”.
      Em sua sonolência meditabunda escreveu algumas linhas que não gostou, acendeu um cigarro e não julgou extraordinário que o isqueiro era cinza e a fumaça do cigarro vermelha, normalmente, as cores estariam invertidas. Fez pouco, reclinou-se na poltrona confortável e pensou em voz alta: “No hay banda, no hay concierto.”, rememorando um filme que havia visto na noite anterior, ou nessa mesma noite, não conseguia ser preciso.
      Em dado momento acreditei que havia voltado a dormir, sabia de antemão e com uma certeza que só nos é permitida nos sonhos: eu estava muito atrasado, por trás das cortinas aveludadas cor de carmim eu ouvi alguém raivoso “- Caralho, o homem do concerto não vem!”. Mas o homem era eu, havia acabado de chegar e envergara nesta insólita ocasião um bonito fraque acinzentado e ao mesmo tempo translúcido, sua extravagante forma mostrava ora meu corpo, ora um cinza mutável e fluido. De súbito notei que sonhava. Como dizem por aí, uma vez que se saiba que está sonhando e não se acorda prontamente, é possível brincar, moldar sua quimera, em suma: fazer o que quiser, era um playground onírico. Decidi me deixar levar e brincar com o novo ofício, subi ao palco e, como um mágico de festa infantil, saquei uma batuta de estranha forma da manga evanescente. Incrível! Como se o fraque fosse gasoso e, ao menor intento de contato, se dissipasse.
       Agarrei a batuta com firmeza, entrei com um ar triunfal de maestro famoso. Luz, aplausos calorosos e assovios entusiásticos. Mas o espaço relegado à banda estava vazio. Vergonha, humilhação e vaias! Resolvi que acordaria, mas antes de conseguir essa proeza, devido ao estado de torpor do meu corpo dormido, recebi um tomate gigante na testa e despertei instantaneamente.
       Ao acordar percebi que havia escrito mais algumas coisas enquanto dormia, num estilo duvidoso, incomum e misto entre primeira e terceira pessoas. Era um conto mal contado. Esfreguei os olhos com força e massageei as têmporas, novamente encarei o espelho à minha frente. Não consegui ver meu corpo, apenas uma cabeça flutuante com um corte em carne viva no mesmo lugar onde havia sido atingido pelo tomate. Em desespero, percebi que a janela estava fechada - coisa tola, mas jurava que a tinha deixado aberta a fim de captar o ar fresco do ocaso. Já suando frio e sentindo uma alteração bizarra em meus batimentos cardíacos, corri em direção à porta, abri e fui tragado em direção ao negro vazio de um aposento invisível. Mas não era fim de tarde?
       Despertou e mal se lembrou da sucessão de confusões em sua mente, riu com desprezo das armadilhas de sua própria cabeça. Segurou a caneta como quem comanda uma orquestra e gargalhou. Esfregou o local onde a caneta deixara o vinco incômodo e, inclinando-se pesadamente à direita, na direção o espelho, concentrou-se para examinar a vermelhidão dolorosa logo acima da sobrancelha. Riu, baixinho e desdenhosamente, mas logo seus olhos saltaram sobre a folha amarrotada do seu conto mal escrito: havia nela uma partitura completa. Riu, nervosamente; -“No hay banda, no hay concierto”, afinal, o homem do concerto não veio, pensou aturdidamente.
        Uma fumaça invadia seu quarto através da janela, não exatamente fumaça: pó, poeira de terra sem direção exata. Por certo não era obra do vento, mas de um rebuliço descomunal acompanhado de um tremor de terra moderado. Ouviu um tropel de pés em marcha, protegeu os olhos, esticou o pescoço para averiguar melhor e, com as pernas fraquejando, contemplou: havia uma banda completa em frente ao seu jardim.

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