terça-feira, 5 de abril de 2016

O não tão estranho caso de Jodarovsky

Tem um tal de Jodarovsky que gosta de bater perninha no abismo. Há a três quartos de metro de sua casa, uma fenda gorgolejando brumas escuras. Ele fica lá com a cabeça inclinada, tentando decifrar a chafurdação niilista do poço obscuro. Já sentiu umas duas ou três vezes, um impulso medonho de se arremessar para o abismo. Apesar do susto, Jodarovsky gosta até de pensar em viver ali dentro. A presença da ausência lhe é tão agradável, que já elabora planos para se mudar definitivamente para as profundezas abissais da fenda. Enquanto passeia por suas ideias, Jodavosky fica batendo perninha no abismo como se relaxasse os pés no sopé da piscina. Há quem diga: ele só não vai pois não gosta de estar só. Mas há quem não concorde, visto que Jodarosky cultiva uma relação extremamente saudável com aranhas. O que Jodarovsky busca no abismo é o inebriante êxtase da ausência. Em sua visão turva, caiu no esquecimento dos prazeres para só se satisfazer nas degustações mórbidas da vida que simulam a morte. Jodarovsky só se lembra dos nomes, e não mais das coisas. Em seus sonhos inquietos, numa tentativa embaraçosa de sentir o verdejar primaveril, sua memória não alcança nada além do desespero, e da vontade de estar cada vez mais próximo do abismo. A mórbida sensação agradável que encontra nas trevas o sufoca de prazeres de tal maneira, que se sente atormentado: e cada vez mais o tédio da felicidade que encontrou o faz pensar mais e mais na possibilidade de um arremessar-se violentamente no hediondo buraco – não para alcançar um certo estado de felicidade almejado, mas sim, um possível sossego no vazio eterno da morte.

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