domingo, 3 de abril de 2016

O Volante e a senhora de si



Gingando, atirando os cabelos para trás, ombro à mostra de um lado, braço nu do outro e generoso decote ovalado realçando os seios que queriam saltar, chegou à fila de ônibus das seis da tarde. Parecia contente. Admirando-a de longe imaginei: poderia muito bem ser modelo das passarelas das grandes cidades. Não, não era só um simulacro de modelo. Na moda a democracia fez seus milagres, deu conta de igualar o visual dos jovens de Paris, Milão, Tóquio, Moscou e do bairro de Campo Limpo.

Campo Limpo era o destino do ônibus cuja fila, num átimo, dobrara a esquina. A moça agora, lado a lado, dava mostras de que a democracia não avançou para o essencial da vida: hálito de fome ou dente doente, pele manchada, cabelos sem brilho, olheiras e outros vestígios, denunciavam faltas acumuladas. Trazia nas mãos um volante que abria e fechava de maneira irrequieta e, nos olhos, expressão ansiosa de quem queria mostrar uma preciosidade.

Acolhi seu olhar e com ele sua fala em jorro. Disse-me ter encontrado,  ali pertinho no chão, o que sonhara e procurava há tempo, seria em breve a patroa de si mesma; faria seu próprio horário, andaria por onde quisesse, falaria com quem desejasse, não iria viver de salário, senhora de si viveria do lucro de suas vendas. Ao perceber minha indagação continuou explicando seu alívio de não repetir a sina da mãe empregada doméstica que não voltava para casa no final do dia e do pai pedreiro preso num descuido, não sabia bem a razão. Tendo feito dezoito anos só voltaria ao abrigo onde morou até ontem, para pegar as roupas e visitar os quatro irmãos menores que lá ficaram.

Abri o volante devagar, incrédula com tal bem-aventurança nestes tempos sombrios. Em caixa alta estava escrito: ESTAMOS SELECIONANDO MOÇAS PARA TRABALHAR NA VENDA DE YAKULT. ESSA É UMA GRANDE OPORTUNIDADE DE SER AUTÔNOMA. ÓTIMA MARGEM DE LUCRO. Lembrei-me de Montaigne: “nada é certo senão a incerteza, nem nada há de mais miserável e orgulhoso do que o homem”.

  

3 comentários:

  1. Lindo! A vejo em pé atenta, vasculhando o momento contido nos seres. Parabéns Querida Leila

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  2. Lindo! A vejo em pé atenta, vasculhando o momento contido nos seres. Parabéns Querida Leila

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  3. Nossa João assim você me deixa de peito estufado!

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