quinta-feira, 7 de abril de 2016

Reencarnaram renan

calado feito águas profundas,
o sono era maior que a vida.
aterrorizado ante o espaço
e todas possibilidades de forma,
viu-se esfarelar-se num pó
tristonho e inofensivo sobre
o chão ameno da memória seca.
ruminou a vida passada
infinitas vezes, até fincar-se
tal cacto na lama, verme e carne.

quando a cabeça pensa e lodosa
alcançou a superfície do poço,
o mais fundo que já havia sido,
notou com total desprezo
a próxima vez a próxima vida,
arquitetada com matérias pobres,
breves e suspiros de desconforto.
relutou, animal em cólera, urrou,
grunhiu, cuspiu impropérios,
apegou-se a sua trincheira.

desencantos, desencantos...
suas mãos apegadas as raízes,
pedras, folhas, terra, sangravam.
e não era vermelho o espesso
líquido escorrendo da podre ideia,
que era seu corpo - mote de fim.
mesmo pregado a paisagem
monocromática, tom breu,
removiam-no, reviviam-no,
enxertando-o na coisa viva.

eis que o berro e o erro encarnam
no grito e no frágil frasco proposto.
o berro de ribalta e cortinas inaugura
a carne, desafeto e rinha. o ato
primeiro é a deixa rebelar-se.
o espesso umbilical é atracado.
o ser de ninharias e vontades,
rachado e deserto, passa a andar
sobre duas pernas e pode, enfim,
errar e errar e errar: renan.

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