quinta-feira, 14 de abril de 2016

Terno como tu?


Tava um dia distraído quando ela disse algo estranho assim que era totem como eu, eu não entendi muito bem e ao mesmo tempo entendi e sabia que sim, e agora eu a encontro mais uma vez, e ao invés dos assuntos de tribo o que nos liga é  a ternura.  Sugiro o chão ao invés das cadeiras, e ela assente, e há um nervosismo do começo, aquele movimento de estranhos deixando de ser assim tão estranhos, e nós falamos baixo. Alguns encontros não exigem barulho. Ela fala em cobertor. Em toque. Eu falo demais. Ela fala com as mão. E depois com o corpo. E os movimentos são mais precisos do que de exageros. O olhar fixo e atento dela, sem dureza ou imposição, é como o de quem tem algo a trocar. Atrás do brilho das lentes vem o dos olhos, e eu quase peço para ela guardar os óculos para eu guardar os olhos. Ela vai-se relaxando, e coloca as pernas assim de lado como que para achar a posição. O bem estar. As mãos. Os olhos. Respiramos. Nosso tempo aqui vai acabar, como o tempo em todo lugar sempre acaba, e antes de levantar e sair para a vida lá fora eu tenho a impressão de que tocá-la seria como passar as mãos na grama num dia de sol.

Um comentário: