segunda-feira, 4 de abril de 2016

Urubus (A)gosto

o cadáver na sala
o lado fechado da mala
restos no travesseiro
no chuveiro
nos talheres 
no cinzeiro 
panela enferrujada
enxurrada
geada
maçaneta roubada

inverno de mendigo
fuga de lunáticos 
limão espremido
suco tomado
bicicletas sem roda
a "cansa" dos dias 
falta de esperança
tapete que escorrega
calçada que tropeça
viagens sem retorno 
bueiro, ralo, descarga
escravos, gravatas, escravocratas
índios, resquícios, indícios
catequeze, inquisição
identidade calada
abandono
nação
roubo
indenização 
falta de verde 
o meu pulmão
Ubaldo Ribeiro
Rubem Alves  
Ariano Suassuna
Gabriel García Marquez 
seus corpos 
a terra 
o sob e o sobre: 
a morte



Com a cabeça pesada, deitada, inconsciente, de dentro de um sonho, me despeço. Tenho o corpo coberto por uma manta viva e negra. Abro os braços aos urubus. Que levem pedaços dos meus olhos, da minha memória, dos meus ouvidos, do meu tato e da minha respiração. Que gritem! Arranquem-me o silêncio, os restos, o ruído. Espantalhem-me. Multipliquem-se. Devorem-me as as feridas.



Doces animais, os urubus de agosto. Acordar numa manhã de dezembro em que brotem sobre mim girassóis.

*inspirada no poema “A criadora de urubus” - João Cabral de Melo Neto, O artista inconfessável. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.




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