quarta-feira, 4 de maio de 2016

O Orfeu do Tucuruvi

Se pudesse, morreria.
Por covardia, imagino o infactível
Com o estofo invisível da cabeça:
em mofo meu corpo em sua inteireza
desliza amorfo pelo Estige, busca a poesia.
No inferno, beberia,
doses cavalares de ímpar beberagem,
destroça molares, selvagem vinho
destraça minha cave oca.
Como versar sem boca, vinho do verso?
Um furo feito à bala imaginária
um pária fechado a algodão, mas
meu peito arrebento à saca-rolha
o líquen, a bolha e a borra,
sem escalas, honram artérias etéreas.
Se pudesse, viveria.
Ludibriaria o barqueiro,
arteiro menino, não daria um vintém,
entoaria um hino a ninguém
e sem o olhar volver, voltaria.

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