quarta-feira, 11 de maio de 2016

O que vejo no espelho. Senão aquele menino vestido de super-homem. Tinha o espelho e melhor cúmplice de seus super-poderes. Nele podia se imaginar feito de aço, voando pelos arredores da cidade e salvando moças a caírem de prédios espigantes. Esfrego os olhos. Vejo minha meia-idade revelada em seu cansaço, cabelos aparvalhados, os óculos mal lavados, uma barba mal aparada, os olhos de quem já muito viu, mas ainda quer muito ver. Não quero vê-lo. Mas ele insiste, como um invasor nessa minúscula sala, poderia ser um monstro, mas o que surge é o tal do homem de meia idade sem qualquer gracejo. Quero rir de mim mesmo. Mas o espelho não ri, está ali em seu mutismo de plástico, imitação barata de madeira, suas bordas finas, um espelho três por quatro, meu registro, a olhar-me por inteiro. Comprei-o no saldão, nós montávamos nossa casa, tudo era graça, nos víamos os dois, nus, em nossos afazeres, você nos retoques da maquiagem, eu me lambuzando de creme de barba, e o baile que embala duas almas, vistas através do espelho. Você não está mais lá. Eu esfrego os olhos. Quero ver-me velho, meu não-rosto, minha transfiguração, mas o espelho não me mostra, vejo-me velho pelos arredores da vila mariana, a comprar peças de reparo, a carregar as sacolas de supermercado, o cansaço das pernas de chumbo, lentamente a atravessar a rua e a causar o incômodo dos apressados motoristas. O que vejo no espelho. Ele não me dá pistas, me prende ao presente, como uma amarra, uma âncora atada ao meu pé, que me mantém na profundidade deste presente por vezes árido, por vezes etéreo, um presente que se passa, e aos poucos passará, passadamente.

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