segunda-feira, 2 de maio de 2016

Preste atenção, querida

O acidente na estação. A moça caiu, e eu lembro da cidade vivida pela primeira vez. A trilha sonora das manhãs com cheiro de Derby. Ó, olha o trem... Em pé na plataforma, eu aberta para o mundo, até para o fedor de cigarro vagabundo, para a programação musical repetida diariamente nos alto-falantes, para a mágica da coincidência provável de o comboio aparecer quando Raul cantava: olha o trem. Recém-chegada, eu palpitava com o caos, gozava cada lambida fria de vento, entrava satisfeita nas multidões sonolentas e perfumadas que se deslocavam abrindo o dia. Feliz de estar perdida. Antes de toda a luz implodir e eu passar anos trancada com medo do mundo e de mim. Antes de conhecer o irreversível. O pensamento que volta sempre ao mesmo ponto. A voz que sai disforme, em soluços, aguda, sobe e desce. A incapacidade duradoura de merecer um caminho.

Um erro é um momento mas também uma sequência. O erro sou eu. Segundo o jornal, a mulher tropeçou e quebrou o fêmur nos trilhos. Eu mergulhei no mundo porque quis. Baixei um pé, depois o outro, pulei. Acordei resfolegante, cercada de sangue seco. Escada, não vi.

Depois do trauma, fui acometida por uma enorme capacidade de entender e perdoar. Não confundir com bondade: é retitude cega, santidade hipócrita. Sob ela, permanece a vontade de apagar, de dizimar, de matar. Mas não vontade de morrer. Só de me torturar com estilhaços de esperança. Rememorar sins que poderiam ter sido nãos e a esperteza que era cristalina burrice. Parte do tempo, nem lembro de quando virei pó, apenas sustento a sensação de derrota e fraqueza. Tento calcular quantas vezes por dia penso no abismo. O tempo todo. Hoje não pensei. Agora pensei.

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