terça-feira, 21 de junho de 2016

30 dias que passei te procurando - cap. 27 e 1


30 dias que passei te procurando
de rodrigo caetano

- o que é bom?
- o que é compreensível?
- o que é confuso?
- que perguntas lhe veem a cabeça?
- o que te tira do texto?

(a formatação aqui no blog pode ficar estranha)




XXVII.

alarmealarmealarmeallarmeaallarmeaallarmmeaallaarmmee.
grito.
duas quartas-feiras e acaba o mês.
menos.
a dor vem dos sulcos no pescoço onde ontem afundaram os dentes da loira que roubou teu rosto.
ardem levemente ao toque,
          mas não dizem nada demais.
forço os olhos. talvez se enxergasse menos.
funciona.
leio um nome com os dedos.
MOIRA.
deve ter dito enquanto fodia. antes ou depois de morder. gravou como um vinyl.
procuro papel e caneta.
risco.
rasgo a folha. prendo ao mural. puxo uma linha que vai da atriz ao nome.
visto uma calça suja, sem cinto. um moletom azul com bolsos. passo um café. engulo devagar. sozinho.
não espero ninguém
                          e ninguém vem.
abro as cortinas e o portão me convida. antes trancava. retorcia. mudou de ares.
“meu primeiro amor foi um pé de feijão.
que deu um broto e morreu„.
quem disse isso?
     você ou eu?
procuro papel e caneta.
risco.
rasgo a folha. prendo ao mural. puxo uma linha que vai do nome à frase.
o ar se enche de melancia.
incenso. não meu. câmara de gás.
fome. assassinato silencioso. sede.
um caldo de feijão resolveria tudo.
encaro o mural.
amanhã te procuro.
-//-

não tem nada nas garrafas coloridas.
-//-

a chave mal abre o portão.
resiste.
mas eu sou forte
e o ferro é fraco.
a mão que empurra se enche de ferrugem.
            não faço questão de limpar.

-//-

a balconista me olha com cara de abraço. tem nome de esfinge ou esfirra. a cara é de carne com queijo. lacrimejo. pensa que sou mendigo. quase choro. me serve um caldo em copo de plástico. aponta pra fora.
saio como o rabo entre as pernas.
um homem de terno me oferece um cigarro. me acende. ofereço o caldo. recusa. agradeço. me cumprimenta com um aperto. me despeço.
entre um gole e outro
sorrio
sua mão tingida de ferrugem.
-//-

o caldo acaba logo.
antes do cigarro.
podia comer um cachorro.
nunca gostei de cachorros.
           latem pra mim. vão me morder.
a loira que roubou teu rosto me mordeu.
estava no cio. me seduziu.
                  esfregou o rabo em mim.
-//-

não sei ao certo por onde andei.
todos os passos parecem voltar atrás.
reconheço as placas.
uivo.
e a não resposta me é familiar.
coço os cabelos. soltam uns fios. secos. queimados.
cheiram a mal tempo.
vasculho os bolsos.
chaves. identidade. nota de 5.
o kit completo pra sair de casa.
na nota uma mensagem. deve ser sua.
“deus seja louvado„.
-//-
podia comer um cachorro,
mas só tenho 5 reais.
tenho que ser seletivo.
escolher o melhor cachorro.
-//-

um homem de terno distribui panfletos em frente à igreja.
me pergunto se é o mesmo que me ofereceu um cigarro.
esse tem dentes mais brancos.
é pálido.
me entrega um folheto. quero comê-lo.
“deus seja louvado„, digo, pensando em                                                                      você.
ele sorri.
pergunta se tenho onde ir.
tenho onde ficar. não sei onde ir. procuro alguém.
diz que encontrei.
não vejo você.
me convida a entrar. está lá dentro.
acredito. sigo. te encontrei. foi mais fácil do que imaginei.
estava bem debaixo do meu nariz.
deus seja louvado.
-//-

me conduz pelo corredor. me deu a mão e é meu guia.
vasculho cada centímetro.
sob os bancos de madeira. atrás das estátuas desbotadas. entre as cores dos vitrais. junto aos fiéis ornamentais.
nada.

num canto escuro cochicham duas mulheres. os rostos quase ocultos. parecem dois bueiros abertos.
quando criança abrimos o bueiro em frente à casa amaldiçoada de meus avós.
éramos gigantes esmagando a morada dos seres
menores cujos gritos de desespero só ecoavam em nossos ouvidos.
“vai sair daí uma barata albina„,
penso.      
ele me leva ao altar. me ajoelha. se ajoelha.
me toma a mão direita com a sua esquerda.
a barata albina se recusa a sair dos bueiros de rostos.
não vejo você.
aperta meus dedos. abaixa a cabeça. pede que eu repita suas palavras.
vamos te invocar.
como não pensei nisso antes?
obedeço.
toma rosto de gárgula. torna a voz grave. não fala, proclama.
sua voz ecoa em cada canto. vibra madeira e porcelana e gesso e vidro.
repito.
juro.
peço.
um sinal.
um sopro uma chuva uma chama um trovão um tremor
que me aponte em sua direção.
“deus seja louvado„,
    ele diz.
“deus seja louvado„,
eu repito.
arranco do bolso a nota de 5.
ofereço ao céu,
a ti,
oramos
juntos,
aos berros, aos grutos,
...
e nossas preces são atendidas.


-//-

procuro me mexer. há luz.
ou fez-se.
dormi o século todo
      e a pangeia se uniu de novo.
demoro a enxergar. cinza. blocos e vigas. braço meio torto.
empurro o que prende meu corpo,
                       sem muito sucesso.
doem as costelas. as falanges. a cabeça.
devem ter soado as trombetas,
                e todo o céu desabou.
um rosto segura meu rosto. estapeia de leve. reajo ao máximo, pouco.
me puxa pra fora das pedras.
o homem de terno não sorri mais. perdeu alguns dentes. pálido. esmagado.
não vejo os bueiros,
mas não estou em condições de reparar.
“vai ficar tudo bem„, diz o rosto. me cobre a boca com tubos.
câmara de gás. assassinato silencioso.
me sinto coberto de algodão.
“meu primeiro amor foi um pé de feijão.
que deu um broto e morreu.
a água secou. o vento levou„.
 quem disse isso?
você ou eu? 
I.

por favor. por favor.
um de cada vez.
por favor.
por favor, mantenham a calma.
nós vamos todos morrer.
-//-
não enxergo um palmo em frente ao nariz.
a chuva é cortina.
pesa. castiga.
mal me mantenho em pé. o chão escorrega. o navio balança.
a voz ressoante do capitão vibra os ossos da nuca.
mantenham a calma. por favor.
e os gritos. mães abraçam filhos. maridos abraçam esposas. se atropelam. batem. pisoteiam. berram.
choram, mas a chuva esconde.
e o horizonte vai se tornando vertical.
“eu só conheço um dos sete mares„, você disse.
as ondam arrebentam a lateral do navio. os céus rugem. vomitam trovões.
um marinheiro passante me abraça.
calmo. resoluto.
devia ter pensado outra vez„, ele diz.
sem me dar as costas, lança o corpo no ar.
homem ao mar.
devia ter pensado outra vez„.
ele ou eu?
e o horizonte vai se tornando vertical.
-//-

proa deve ser a frente. ela sobe.
popa deve ser a traseira. ela desce.
os eixos se confundem, confluem.
o espaço só tem uma dimensão.
e ela engole a embarcação.

-//-

não vejo você.
...
homem ao mar.
mulher ao mar.
crianças e idosos primeiro.
nós vamos todos morrer. 
doce. doce.
doce querosene.
o cheiro me invade. embala.
a carne chamuscada. encharcada. chamuscada. encharcada.
explosão segue explosão.
entre o fogo e a água, prefiro queimar.
as chamas se erguem. são tochas. é onde quero chegar.
um momento e tudo se acaba. do jeito que prometemos.
eu não quero que a morte dure mais que um segundo„, você disse.
e eu concordei.
faço força. os pés deslizam. a Terra me puxa pra baixo. estendo as mãos. sinto as unhas queimarem. só preciso de mais uma explosão. um grande cabum.
cabum.
a água é dura como cimento.
a água é mole e me envolve.
quer me invadir.
entra pela boca, ouvidos e nariz. por baixo das unhas. nos poros dos pelos. me empurra pra baixo. vai me engolir.
não enxergo um palmo em frente ao nariz,
mas em meio ao oceano
vejo você.
leve como alga. nada em frequências. seu vestido dança o ritmo de uma canção que não consigo ouvir.
a pressão esmaga meus tímpanos.
você me toca. sussurra. e as bolhas que escapam de sua boca dizem
você já sentiu que respirava embaixo d'água?„
me lembro de respirar.
a água salgada me corta por dentro. enche os pulmões. vai me abastecer. sou feito de água. sou mar e maré.
podiam me abrir guelras no pescoço.
você vê o desespero em meu rosto. nos olhos e na boca. pede silêncio levando o dedo aos lábios. me abraça. me acalma.

você não está se afogando„, você diz,
só está aprendendo a afundar„, você diz.
eu sou um ótimo aluno.

-//-

todo dia
termina em tragédia.„
quem disse isso?
eu ou você?

-//-

acordo encharcado. o corpo e os lençóis cobertos de suor. um peixe na poça.
ao meu lado
            um buraco.
não vejo você.

esfrego os olhos. ergo o pescoço. chamo seu nome.
eu tive um sonho horrível„, digo.
...
-//-

...
acordo. o sol incomoda os olhos.
me sinto melado. nem seco, nem molhado. um nojo.
me sinto sujo.
não vejo você.
a cabeça dói quando levanto. enjoo. apoio as mãos na parede. tateio nosso labirinto até o banheiro.
o rosto no espelho é fundo e frio.
enrugado e seco.
pareço um saco.
não sei o que fiz ontem.
eu me afoguei.
mas isso foi sonho.
chamo seu nome.
...
enxáguo o rosto. a pele chupa a água. engole.
chamo seu nome
mas você não responde. 
passo um café, que faço pra dois.
você deixa esfriar.
tomo banho. lavo a louça do dia anterior. ou do dia antes dele. tem molho nos pratos.
não lembro o que fizemos ontem.
que dia é hoje?
...
-//-

encaro o buraco na cama.
seu lado.
o cobertor ainda molda os contornos de um corpo.
a depressão no travesseiro
é sua cabeça.
procuro pistas pelo quarto.
algo fora do comum.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
seu computador no chão.
...
sua pilha de livros.
...
pratos e copos que não levamos pra cozinha.
...
sua luminária fluorescente.
...
suas roupas.
...
o telefone toca.
ninguém nunca liga.
ignoro.
na parede, seu mural.
uma mensagem.
você já sentiu que respirava embaixo d'água?„
encaro o mural.


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