terça-feira, 28 de junho de 2016

A Ordem da Vitória Régia

A Ordem da Vitória Régia – Origens

Sobre o projeto

O projeto consiste em um livro de alta fantasia que resgatará a mitologia brasileira utilizando nossas lendas e os mitos do nosso panteão em uma aventura épica. Em todo o mundo são aceitos com sucesso livros e filmes com as temáticas mitológicas grega, romana, celta, egípcia e até chinesa, mas nosso panteão e criaturas místicas são desconhecidos do mundo, e dos próprios brasileiros.

O livro tratará as personagens do nosso folclore como deuses e criaturas mitológicas mágicas e poderosas, não infantilizadas, diferentemente de como são abordadas no universo Lobateano.

Todas as personagens serão baseadas e construídas de acordo com as definições e pesquisas de Luís da Câmara Cascudo, historiador, antropólogo, advogado e jornalista que dedicou-se ao estudo da cultura brasileira e produziu o Dicionário do Folclore Brasileiro. A obra de referência abrange os mitos e lendas indígenas, africanas e europeias, formadores do povo e das histórias do Brasil.

Estrutura e definições

Gênero: literatura fantástica – subcategoria fantasia épica (ou alta fantasia), que se dedica à criação de mundos totalmente independentes do nosso, com regras próprias, mas evocando, ao mesmo tempo, aspectos medievalizantes de nossa realidade.

Narração: 3ª pessoa

Época: Idade antiga: período que se estende desde a invenção da escrita (de 4000 a.C a 3.500 a.C) até a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C).

Loca/Geografia: Em lugares indefinidos da Europa, da África e do Brasil (interior, sertão, matas e selva amazônica). A ideia é cruzar os povos que originaram o povo brasileiro: europeu, negro e indígena.

Conflito/Sinopse

No princípio era Ci, a mãe de todos, a encarnação da Terra e de todos os ventres grávidos. Foi a origem e preside o destino das coisas que dela se originaram.
Ci criou a Terra, toda a flora, fauna e suas as criaturas, e tinha tanto apreço por sua criação que presentou suas filhas Irna, a Mãe D’água ,e Arina, a Mãe D’ouro, dando a elas a regência do planeta.
Irna, rege as águas do planeta e zela por toda a vida na superfície da Terra e seus fenômenos naturais. Arina é a rainha do centro da Terra, regendo os magmas e suas altas temperaturas, todos os metais como o ferro e o níquel, o ouro, a prata, os diamantes e pedras preciosas.
Ao receber o valioso presente, as irmãs juraram proteger e preservar o planeta, todos os seres vivos, entes mágicos e todos os seus recursos naturais, seguindo o princípio de Ci, a generosidade. E assim foi durante milhares de anos, até uma das espécies do planeta começar a evoluir mais rapidamente que as demais, os seres humanos.
Esses seres assustavam Arina, e ao ver o que se tornariam no futuro, decidiu exterminar a espécie para preservar sua herança. Irna discorda da irmã lembrando que herdou a Terra com todas as suas espécies, sendo contra o extermínio. O Princípio da Generosidade é quebrado entre as rainhas-Mães, e as irmãs entram em guerra, evocando cada qual suas criaturas mágicas e mitológicas como exército.
Irna entende que precisa de interlocutores da própria espécie para essa guerra pela sobrevivência e evoca mulheres especialmente escolhidas para a missão de interceder entre mundos dos entes e dos humanos. Évora, uma feiticeira da região da Galícia, Kahina, a rainha e guerreira africana e Nadi, primitiva da grande floresta.
É neste ponto que nossa história começa, com o chamado da primeira interlocutora, Évora.


A ORDEM DA VITÓRIA RÉGIA

CAPÍTULO 1

A TRAVESSIA DE ÉVORA

A chuva fina descia sobre o porto da Galícia há cinco dias, enregelando os corpos e dificultando o carregamento da pequena embarcação. No cais escorregadio resistiam apenas os marujos que descarregavam forçosamente as mercadorias necessárias para abastecer a Vila Calyda e cerca de 20 homens preparando para viagem aquele barco com o sugestivo nome de “Encantado”.

Os marujos olhavam o carregamento do Encantado com curiosidade — Onde iriam aquelas almas num tempo desses?

   A viagem será curta, espero — um dos marujos interpelou o homem que parecia estar no comando dos trabalhos. — Não existe previsão de quando a chuva vai passar e o mar está agitado.

   Tem medo de se molhar marujo? — Zombou Francis, o comandante da missão, homem corpulento e vigoroso apesar da idade avançada denunciada por rugas profundas na pele morena, rachada pelo sol e pelo ofício de navegante.

A preparação do barco continuava frenética enquanto uma névoa escura ia se apropriando da paisagem. Já passava das 4 da tarde e logo ia escurecer.

Minutos depois, o mesmo marujo voltou a falar com Francis, agora mais interessado em uma oportunidade de trabalho. — Já vai anoitecer e talvez eu possa ajudar nessa entrega. Sabe como é, com essa chuva há dias não aparece trabalho bom por aqui, tenho muita experiência…

   Não precisamos de nada. — Francis foi rápido e seco na resposta e andou em direção ao barco com uma caixa de provisões nas mãos.

   Eu conheço bem essa baía e posso estar aqui na primeira hora do dia — disse o marujo correndo atrás de Francis.

   Já estamos de saída rapaz, não precisamos de mais ninguém, o Encantado é pequeno e nossa jornada será longa.

   Vão navegar à noite? Está certo disso senhor? O mar está bravio, todas as embarcações estão probidas de chegar ou sair depois das 5.

Francis olhou discretamente para o cais.

A certa distância uma jovem observava o movimento em torno da embarcação, os olhos azuis sob o capuz da longa capa preta que a protegia da chuva estavam fixos nos dois homens conversando. Fez um leve sinal negativo e baixou a cabeça, ocultando ainda mais o rosto pálido.

   Sairemos antes das 5, se você parar de me atrapalhar. — Francis afastou-se do marujo para cuidar dos últimos preparativos, deixando-o atônito com aquela situação incomum.

Cerca de uma hora depois todos os preparativos estavam concluídos e Francis foi ter com a jovem no cais. —  Tudo pronto para zarparmos senhorita, as provisões, os homens, as velas e remos. Mas é minha obrigação tentar removê-la da ideia de sair agora, em meio à chuva. Com o clarear tudo será mais seguro e…

   Vocês estão sendo bem pagos para esta missão Francis? — indagou a jovem, interrompendo o homem com voz calma e doce, quase um sussurro, porém com uma firmeza que não deixava dúvida sobre o rumo da conversa.

   Sim, senhorita. Todos recebemos uma boa quantidade de moedas, e a outra parte já está registrada em nome de nossas famílias, caso não retornemos. Não se trata disso, apenas de prudência e de bom senso. Os homens estão preocupados, já que o destino não foi revelado e não temos uma rota traçada.

— Quanto a isso não se preocupe, seremos guiados e estaremos em segurança . Vamos, leve-me para o barco.

Dentro da pequena embarcação, Évora inspecionou as acomodações improvisadas para os remadores, para a tripulação e para ela. Tudo era muito apertado e precário, mas ela seguia fielmente as instruções recebidas. A voz que lhe falava há alguns meses era didática e clara sobre como proceder, e esse era o dia em que devia partir ao seu encontro.

Voltando-se para a tripulação reunida no convés sob a chuva e tremendo de frio, Évora afastou o capuz que cobria os longos cabelos claros e olhou-os por um momento com bondade, doçura e gratidão. Mas quando começou a falar, sua voz soou fria como lâmina e seu semblante parecia iluminado na tarde escura.

   Sei que vocês estão temerosos, que aceitaram essa jornada apenas pelo dinheiro. Alguns de vocês nesse momento estão arrependidos, outros querem saber para onde vamos. Senhores, não temam! Esta embarcação será guiada por mãos fortes, que as nossas não alcançam. Seremos conduzidos por olhos que os nossos próprios olhos não podem ver. Enfrentaremos perigos nos longos dias e noites no mar, mas asseguro a vocês, estaremos protegidos e chegaremos no dia previsto ao nosso destino, em terras que ainda não sonhamos existir.

A tripulação se entreolhava sem entender muito bem o que Évora dizia, mas uma coisa era certa, a jovem tinha uma aura de luz que não permitia desviar os olhos dela. A chuva parou e uma brisa forte rondava suas cabeças, limpando as nuvens funestas sobre o Encantado.

   Não permitirei nenhuma atitude hostil aqui ou nas novas terras que encontraremos, pois fomos convidados a nos apresentar diante rainha-Mãe e seus súditos, e agiremos com gratidão e respeito.

A menção a um reino deixou os marujos, enfim, mais tranquilos, e alguns sorriam seus dentes podres. O céu agora estava limpo logo acima da embarcação e um fio de luz dourada do sol da tarde pendia sobre eles, constrastando com o entorno negro de nuvens carregadas.

   Por fim, lembrem-se, vocês estão sob meu comando e nenhum desvio será tolerado. Vamos partir.

Houve uma movimentação intensa seguida de gritos de ordem, e finalmente o Encantado começou a mover-se calmamente, com a luz dourada a cobrir-lhe as velas, mar liso à frente e vento forte incentivando os remadores. À medida que o barco avançava, deixava para traz um rastro de ondas violentadas pelo vento, nuvens carregadas e chuva que caía sobre a escuridão da tarde, mas nada disso os alcançava.

Aquele barco com suas velas refletindo os raios do sol e uma silhueta feminina na proa foi visto e testemunhado pelos que estavam no cais naquela tarde cinzenta e úmida, e foi também observado das janelas das casas vizinhas ao porto de Galícia.

Durante anos houve muitos comentários a respeito, mas ninguém desta geração soube seu destino, nem tampouco presenciou o retorno do barco Encantado e seus enigmáticos tripulantes.

...continua



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