quinta-feira, 23 de junho de 2016

Cartografia Intima

08 de Fevereiro

— 96
O portão abre. Uma mulher me espera na porta, ela seca as mãos num avental e estende o braço, sem sorriso, nem afeto. Ela caminha na minha frente explicando o que eu não posso fazer na casa, o que é proibido, ela para no terceiro degrau da escada que separa a cozinha de um quarto — Tocar nas coisas, jamais; Abrir portas, mexer em gavetas, mudar coisas do lugar, nem pensar; visitas também, odeio casa cheia, pessoas felizes, crianças alegres, Incenso, música de qualquer tipo a qualquer hora: drogas. Aluguel todo dia cinco, no máximo dia sete, se eu não tiver aqui— é raro, mas pode acontecer — você deixa o dinheiro dentro desta caixa que estará na sala, ok. Seja bem vindo, sintase
em casa, mas não na sua casa.

11 de Fevereiro

Entre prédios
fracos raios solares avisam
é hora de lutar pela sobrevivência
consumir corpo, mente
afastar as fantasias infantis
animais falantes
princesas esquecidas em torres
animais alados, poderes mágicos.
sob o sol radioativo
mitos e lutas são outros e perversos
Se a vida é palco
humanos atores
Deus é roteirista e diretor
um humorista
Se a vida é palco
Eu sou palhaço das perdidas ilusões.

15 de Fevereiro

Deus é um grande comediante, não duvido que pra me forçar a enfrentar Terezinha, cause um AVC na velha, me obrigando a socorrê-la.Abro a porta, a velha animada, segurando uma garrafa térmica e um pedaço de bolo de fubá, pronta pra me dar amor de vó, nem me lembro a ultima vez que outro ser humano esteve disposto a cuidar de mim.

19 de fevereiro

No dia em que fui embora Lígia não chorou, passou o tempo todo sentada no sofá folhando uma revista velha, as pernas cruzadas, olhar. Não consigo continuar escrevendo.

20 de fevereiro

O segurança das terças feiras, me cumprimenta com a boca cheia, será o bolo de Terezinha, melhor não pensar nisso. O dono do bar, homem, 50 anos, estrangeiro,entende português, mas não fala uma palavra compreensível, com uma sacola plástica suja, guarda cinco latas, sente o peso e decide que é melhor usar duas sacolas. Na TV ,Lídia recebe um telefonema misterioso, uma voz abafada diz algo que não entendo, desliga o telefone deixando Lídia atordoada, fim do capítulo. A garçonete aplaude, finalmente Lídia acordou do feitiço e descobriu que Rogério-aquele-canalha-gostoso é um traidor. Penso em Lígia, é inevitável não pensar nela quando ouço as palavras feitiço, mentira e traição, pego o troco e volto para casa. O décimo terceiro andar é um convite ao suicídio. Ponho á cabeça pra fora da janela, a gravidade me puxa pra morte, penso em ligar para um amigo, ainda tenho alguns, a campainha toca, Terezinha trás bolo de fubá e um copo de leite e sem pedir licença cuida de mim.


22 de Fevereiro

Acordo com a dona da casa batendo em minha cara, explico a ela que me tornei um sonâmbulo depois de uma crise de stress, repito os últimos três meses para que ela não pense que ando dormindo pelos cantos por causa da bebida, ou pior, que algum demônio  se apossou de meu corpo. A dona da casa enxuga as mãos no avental — Uhum sei, sei, e vai embora. Terezinha fecha a revista dos Astros.
— Será que Lídia e Rogério-aquele-canalha-gostoso terminam juntos. Mesmo depois do
telefonema misterioso?

24 de Fevereiro

Fila de ônibus, plataforma do metrô, pausa pro café, rodas de fumantes, não há lugar nessa cidade livre da curiosidade sobre o desfecho de Lídia e Rogério-aquele-canalha-gostoso, perdoar ou não perdoar, punir ou não punir Rogério-aquele-canalha, todos têm uma opinião formada.

Noite:
5 dias á beira da loucura
penso em Deus
será que sou capaz de rezar?

28 de Fevereiro

Está na hora, viagens curtas, bares com musica ao vivo, ver pessoas, conversar com elas faz bem Você precisa de uma boa foda, isso sim. Que tal tomar um banho, por uma roupa legal e espairecer, o dia tá bonito, sol vai te fazer bem, a gente chama os caras, dá um rolê. Lígia te largou, é uma merda, mas a vida continua cara. Se você sair, se envolver no rolê logo pinta outra, ou outro, vai saber. Então vai logo, caraí. 20 minutos eu buzino aí e se você não tiver pronto, eu mesmo te ponho debaixo do chuveiro e te arrasto pra vida. Tchau.

29 de Fevereiro

Cerveja a gente não compra, aluga. Beto vai mijar e me deixa sozinho com Laura, ela pula uma cadeira e senta ao meu lado. Ela mostra uma tribal na altura da bacia, uma borboleta que parece um cavalo marinho na nuca, e conta suas aventuras épicas no final dos anos 90. Beto chega— vou mijar — digo batendo as duas mãos na mesa como um tambor.Laura sabe exatamente as coisas que tem  que fazer e falar para levar um homem como eu pra cama. Volto para mesa, na minha frente o garçom carrega três geladas, encho meu copo e espero Laura e Beto, desenhando círculos imaginários com o copo, estou bêbado, sem resistência penso em Lígia, pela primeira em 3 meses, penso em Lígia e não sinto vontade de morrer.

05 de Março

Sigo uma rota imaginária até o corredor, cercado por vidros que vão do chão ao teto para inibir suicidas. Não vejo nada além de carros e pessoas, sou obrigado a continuar, furo a fila que se forma próximo à escada rolante, entre falsas gentilezas desço três lances de escadas, entro no vagão, sou espremido contra à barra de ferro, abafo os ruídos ora queixosos, ora aflitos com o fone de ouvido. A porta abre, mais pessoas. Tão apertado que posso sentir a barra de ferro atravessar o coração. Na quinta vez que a porta abre, eu escapo sem falsa gentileza. Fora do vagão me sinto livre, a falsa sensação de liberdade me faz pensar em Lígia.

9 de março

Deus?
No FM, pausa para o recado dos astros: Lua minguante em Aries, a lua dos novos começos solitários, junto á lua, Vênus na casa três beneficia pequenas viagens e a amargura. Que tal um batevolta no litoral com seu amor? Impossível Sr. Locutor, a uma hora dessas Ligia está no portão de embarque do aeroporto com seu novo amor, destino alguma praia-de-sol-ameno-e-areias- brancas,e eu aqui arrumando a sujeira. Sete anos casado e o que sobrou — a sujeira.

23 de Março

Perdi a vontade de viver. O que escrever quando a vida não faz sentido? Beto sugeriu uma terapeuta, não sei... será? A Dona da casa está me persuadindo a ir com ela no culto das sextas feiras( ela não crê no milagre do Citalopram, ou ela acha que sou um caso perdido e só Deus pode me curar. Será?) Terezinha quer que eu vá numa cartomante. Ela disse com aquela voz de britadeira: Maristela me ajudou quando o falecido-que-deus-guarde-sua-alma-no-inferno fez a passagem. Vou procurar o telefone dela e você liga, tá bom? Duas horas depois, Terezinha trás um pedaço de bolo de fubá e o telefone de Maristela.

25 de Março

Queria ter vindo mais cedo, tá uma bagunça aqui, apartamento de solteira sabe como é. Você bebe o que, vinho ou cerveja? Sento no sofá, Laura ajoelha e abre meu zíper. O que você acha de drogas? Ela diz manuseando meu pau. Tudo bem se eu cheirar? É tão bom poder ser eu mesma com você, sussurra — Vou pegar uma breja pra você. Bebo olhando a paisagem através da janela, Laura bate uma carreira, me beija e sussurra — Vem mor, vamos foder no chuveiro.

26 de Março

Você faz uma pergunta, embaralha as cartas, corta e separa cinco . A cartomante não espera eu pensar na pergunta. Vira as cartas em sentido horário — Você não foi sincero ao fazer a pergunta, por quê? E embaralha as cartas sem olhar para mim. O cheiro de incenso é nauseante, um gato preto atravessa a janela. Morte; Você é resistente, apegado e controlador, aceite que você é frágil, a vida não tem sentido, a morte chega para todo mundo e vai se reerguer. Mas, mas não foi isso que eu perguntei — 50 reais a consulta, ela diz guardando o baralho.

02 de Abril

Bravo não, Laura, puto. Tento me acostumar, mas não dá, não consigo. Eu sei que é difícil, mas você pode se esforçar, não custa nada, saia mais cedo. Quando foi que me deixar esperando virou um comportamento padrão? Nenhuma resposta, nem desculpa. Inventa um imprevisto, telefonema longo, visita inadequada, PCC queimando ônibus, final de novela. Assim evitamos outra discussão.

05 de Abril

Suor gelado escorre da testa, empoça em baixo do braço, na palma da mão, aperto o passo para não perder o elevador. Dentro da caixa oca me escondo atrás de pessoas. Trabalhar aqui é um ataque a saúde emocional e física. Ligo o computador, eu preciso do dinheiro e eles de alguém que ligue as máquinas. Pausa para o almoço, tenho fome, mas não sinto o gosto da comida. Deslizo o dedo no feed de noticias. Há tempos substituí os colegas de trabalho pela máquina— meu desejo é substituir todo o contato humano por máquina.

09 de Abril

Podemos conversar? Entre, por favor. O homem é um investigador criminal. Sabe-se, até o momento, que não foi suicídio, motivos existem. No entanto, há cena de crime.Suspeitos? Acontecia uma festa na residência de Otaviano-o-todo-poderoso-falecido,no momento de sua morte. Aproximadamente 100 pessoas circulavam pela casa, pode ser qualquer um. Onde você estava? Tive um desentendimento com Lídia, fui embora, passei a madrugada com Perséfone. Esse é o meu telefone, Rogério. Se lembrar de alguma coisa é só ligar, ok? O pó acabou a três dias, o amigo que vai na biqueira espera na portaria, Laura atropela as palavras e as roupas, pega 50 reais na minha carteira e bate a porta da sala. Abro uma cerveja, a novela continua.

10 de Abril

Nem 8h e eu acordado. Pensamentos apressados, controlar as coisas, não o que pode ser controlado, só o que não tem controle: mulheres... noitada ontem hein, Laura. Vai levar uns dias arrumando a bagunça emocional. Laura acorda sobressaltada como se tivesse teletransportado do mundo dos sonhos sem aviso — O telefone vai ficar o dia todo no bolso, liga se precisar. Desligo o telefone assim que chego na casa de Terezinha. A velha está mais desbaratada que o comum— Toma, é um agrado pelo que você fez por Lígia. Espio o conteúdo no tapaware, Terezinha conta as dificuldades pelas quais Lígia passa desde a separação. Bem feito, penso comendo um pedaço de bolo — Bem feito.

14 de Abril

Na telinha lCD, no desgraçado painel de um carro esculhambado, um apito, o motorista aperta um botão invisível e bufa — Carga baixa. Está na hora da minha novela, essa corrida vai levar mais tempo do que previa. Acredita que o motorista me expulsou do taxi ?

15 de Abril

Essa mulher desordenada em nada se parece com a Ligia que me habita a memória. O que você quer? Um suco de Hortelã e um pão de queijo. Ela tem dificuldade em pronunciar as palavras, levar o copo à boca, engolir a massa quente recheada de magoas. Três meses separados, ela viu coisas terríveis e injustas acontecer. Tudo que eu posso e quero fazer por Ligia é o que faço: um cheque. A ex Ligia guarda o cheque prometendo devolver ca-da-cen-ta-vo. Esse dinheiro tá sobrando, Ligia ( mentira), não quero mais vínculo (mentira), fique com o dinheiro e seja feliz ( longe de mim).

25 de Abril

Maurão a garrafa secou — Foi rápido, mais ou menos três horas, empacotei três anos de magoas numas caixas, lacrei para sempre. — Sem choro, nem vela — Maurão, Maurão! Garrafa vazia oficina do diabo— Uma vez eu fui numa cartomante— Ouve essa, Laurinha, fui numa cartomante... Foi tenebroso, ela disse que a pergunta não foi honesta, que eu não queria ajuda, mas testar a competência dela, repeti a pergunta três vezes até a resposta—Alguém divide uma porção de batata comigo?— Deixa eu falar caraí— Deu certo no fim,Solidão, sacrifício, mudança, diagnosticou a cartomante. Você vai achar que sacudiu a poeira, deu a volta por cima, mas não se iluda, vou chegar no fundo do poço da tristeza e solidão para expandir espiritualmente e me reerguer— Desculpa, eu tou com fome, divide uma porção comigo?— Maurão, trás mais cerveja e uma porção de batata— Média? — Não sei... Trás uma porção grande, meu querido! — O que você vai fazer agora— Beber!—Cadê a Laura? — Maurão, desce mais três, da mais gelada.

29 de Abril

Interminável a fila no terminal de ônibus, junto á catraca da estação de metrô. Na rua, rodas de fumantes na calçada do bar, o garçom desliga o DVD do Safadão e põe na Globo.Um desavisado pensaria que é Brasil e Argentina na final da copa do mundo, mas é o último capitulo da novela que todos querem ver. Shiii, cala a boca que a novela começou,ordena Laura. O investigador criminal entra numa viatura e atravessa a 23 de maio cantando os pneus. Estaciona o carro num sobrado germinado, invade a casa de Perséfone que está na cozinha,preparando um frango assado envenenado para jantar com Rogério-aquele-canalha-gostoso.Gérson não acredita no que vê, que cena inverosímel,diálogos artificiais, pausas estranhas, música comentando a cena bizarra em que Perséfone, secretária e amante de Otaviano-todo-poderoso-falecido, narra como o matou. Calaboca, Gé! Laura ordena sem tirar os olhos da TV. Maurão, manda mais breja caraí! Perséfone sai da casa  numa camisa de força, antes de entrar na ambulância xinga Lídia que chora vendo todo aquele escarcéu e corre em direção a Rogério. Os dois se beijam enquanto Lídia mistura juras de amor e pedido de desculpa. Maurão, mais cerveja! Laura chora quando o padre diz " Pode beijar a noiva". Um silêncio comovido paira no bar, na roda de fumante, junto à catraca da estação Paraíso, no terminal urbano vazio. Maurão, cadê a breja! Gérson clama.

30 de Abril

Sabe o seu Moacir? O japa da banca de jornal, então... Ele tem ido lá em casa quase todo dia. No começo ele tocava a campainha com alguma desculpa para falar de portas trancadas com a dona da casa, mas tem uns dias que ele entra e sai sem pedir licença. Ás vezes eu acordo com o barulho de seus passos fininhos pela sala, hoje eu encontrei uma cueca preta na garagem. Perguntei a gostosinha da filha dele, a Mizuki, e ela confirmou o caso. Disse que eles até marcaram jantar pra oficializar. Hoje de manhã a dona da casa  anunciou que é pra eu ir embora. Me deu prazo pra sair e tudo, vê se pode. Tenho menos de um mês pra arrumar um lugar pra morar — Posso ficar um tempo na sua casa Laura?

Nenhum comentário:

Postar um comentário