quarta-feira, 29 de junho de 2016

Dias de Glória


DIAS DE GLÓRIA



I

Era Glória e a louça.

Glória hesitava diante do armário da cozinha. Almoçar ou não almoçar? Tinha fome. Conseguira saltar o café da manhã, mas estava difícil fazer o mesmo com o almoço. Olhou de relance para a pia e desviou o olhar assim que percebeu que suas retinas haviam registrado o que, na verdade, já sabia. A pilha de louça insuportavelmente se multiplicava por sobre a pedra de mármore. Almoçar significava contribuir com um prato, um garfo e uma faca para aquela angustiante montanha. Uma estratégia eficiente do que cozinhar poderia lhe poupar a faca, mas era pouco. Lembrou-se que ainda haviam as panelas. No armário, só uma frigideira. Todo o resto repousava de forma caótica sobre o fogão. E também havia o cheiro. Não era preciso terminar de cruzar toda a sala para sentir o odor nauseabundo que vinha da cozinha. Era o resto de lentilha que fermentava naquele calor fora de época de abril. Sempre o dilema do resto. Nunca o bastante para ser guardado na geladeira, nunca tão pouco a ponto de valer o esforço de ser jogado fora. O resto acabava ficando mesmo nas panelas e se transformando em cheiro. Divisou por acidente o cacto esquecido no balcão do armário e sentiu inveja dele. Glória quase nunca se lembrava de lhe servir água e ainda assim ele se mantinha intacto, forte e verde, como no dia em que foi parar ali, sem que para isso tivesse que sujar uma louça sequer. Felizes eram os cactos. Mas Glória não era um cacto. Glória tinha fome. E se poupasse as louças por mais aquela refeição? Olhou para a fruteira. Uma banana preta e os insetos que lhe faziam companhia. Talvez servisse para fazer doce. Mas doce sujava louça, muita louça, e Glória não queria lavar louça. De forma quase instintiva, afastou os insetos com as mãos. Glória dirigiu-se então à geladeira e os insetos voltaram a rodear a banana, nem bem Glória lhes dera às costas. Abriu a porta. Um pote de margarina pela metade, um vidro de requeijão praticamente vazio (mas que não descartara porque sempre pensava que podia render mais uma ponta de faca), alguns sachês de catchup, fruto da última promoção de esfihas de frango da rede popular de restaurantes árabes, uma cebola murcha e um naco de queijo ressecado. Glória pegou o queijo e o levou em direção às narinas. Não estava estragado. Glória tinha fome. Foi mordiscando pelo meio para evitar as partes secas das bordas. Depois foi com borda e tudo. Não bebeu água. Glória havia almoçado sem ter sujado uma louça sequer. Agora já podia voltar para o seu quarto e chorar até a hora do jantar.


II

Era a Glória e a maçã.

Chegara o tempo de ficar junto aos avós paternos. Chegara o tempo das maçãs.

Não lhe desagradava de todo a ideia de viver um pouco em cada avó. Não se cansava. Quando algo começava a lhe aborrecer, já era o tempo da troca. Pensariam o mesmo os avós? Refletindo bem, deviam pensar. Mas a Glória jamais lhe fora concedido o privilégio da escolha.  Se alguém lhe perguntasse qual era o seu desejo, decerto que escolheria abrir mão de qualquer rodízio e viver sempre ao lado da Mãe. Mas não dava. Não sabia bem porque não dava, mas o tapa na boca que seu avô lhe dera da última vez que perguntara, lhe convencera que devia ser por um bom motivo. As pessoas grandes são assim, sabem bem como nos convencer das coisas. Era bom desse jeito. Glória não sabia porque a Mãe nunca estava com ela, por isso podia imaginar o que quisesse. A mãe devia ser atriz de cinema, dessas com peruca loira e cacheada e com uma pinta no canto da boca. As atrizes eram pessoas muito ocupadas. Viviam viajando de uma cidade para outra para receber prêmios e assinar autógrafos. Quando crescesse iria ser atriz como a mãe, por isso tinha uma caderneta secreta onde ensaiava seus autógrafos. Daria muitas entrevistas, faria muitos filmes e comerciais de shampoo. Assim como sua mãe, também teria uma filha. A diferença é que cuidaria para não esquecer de levá-la consigo a cada filmagem e apresentação. Sua Mãe devia ser muito esquecida. Era isso.

Uma pena não estar ali. Não saberia como eram boas as maçãs. Era todo dia o mesmo ritual. Assim que acabava o almoço, o avô saía para o pequeno pomar dos fundos e voltava com uma reluzente maçã nas mãos. Somente ali haviam maçãs tão vermelhas, tão brilhantes, parecia que tinham sido polidas e lustradas. E também havia o cheiro. O avô não precisava terminar de cruzar todo o pomar para que Glória e a avó pudessem sentir o aroma adocicado que vinha da maçã. Será que o avô tinha poderes mágicos? Não era possível tamanho milagre acontecer sem a interferência de poderes sobrenaturais. Como que algumas pequenas sementes lançadas em uma porção de terra poderiam se transformar em cheiro? Naquele cheiro! Uma pena o avô ser tão ranzinza e gostar tanto de facas. Por mais que o pomar fosse farto e houvesse maçãs suficientes para todos, o avô insistia em profanar o fruto com aquele pequeno punhal. Ai, como lhe doía o peito ver aquela preciosa e frágil maçã ser apunhalada, repartida, desfigurada! Mas ao avô lhe repudiavam os restos, não dava margem a qualquer espécie de desperdício. Era sempre um pedaço para cada um e só cortava outra depois que as primeiras porções já tivessem sido engolidas. Mas a que preço! A cada punhalada podia ver a maçã chorar (ou sangrar?) com aquele sagrado suco dourado perfumando a fria lâmina que lhe dilacerava a polpa. Como devia ser maravilhoso ter uma maçã daquela só pra ela, segurá-la em toda sua completude, sentir seu peso, cheirá-la e abocanhá-la na parte mais polpuda, primeiro em uma extremidade, depois na outra, e revezando até que cada lado se unisse ao miolo, à semente sagrada daquela maçã.  Mas jamais ousaria pedir isso ao avô. Só de imaginar, já conseguia antecipar a dor do tapa, o choro que teria que engolir para que não recebesse um segundo. Não, não pediria. Tampouco rogaria à avó. Ela jamais desobedecia às decisões do marido.

Foi então, que houve o delito.

O avô trabalhava no quintal. O pomar estava sempre sob seu total controle. Quase sempre. Durante os preciosos minutos que sucediam ao almoço, o único som que se ouvia na casa era o do ranger da rede diante do balançar do avô. Era a trégua. Era a margem de erro que tripudiava do seu intrincado esquema. Era a chance de Glória. A avó costurava na sala, sabendo-não-sabendo das intenções da neta. Glória descalçou as sandálias. O som de seus passos poderiam ser o suficiente para despertar o avô. Podia ouvir o coração pulsando quando cruzou a porta que dava para o pomar. Estava ela diante da rede e da macieira que lhe sustentava. Era ela diante do avô. O avô ressonava. Estaria fingindo? Deu dois passos e parou. O ronco mudou a cadência. Estaria acordando? Esperou até o ronco voltar a um ritmo seguro. Deu um terceiro e um quarto passo. De onde estava, maçã e avô já estavam bem nítidos. Continuou caminhando vagarosamente e estancou, quase colada a macieira. Súbito, o avô virou-se. Parecia que olhava para ela por suas pálpebras cerradas. Glória não hesitou. Esticou-se o mais que pôde e alcançou a mais acessível das maçãs. Não teve coragem de olhar novamente em direção à rede. Só o que conseguia era correr. Correr com a maçã nas mãos. Correr para bem longe do olhar do avô. Atingiu a porteira que separava a casa da rua e continuou a correr para onde as pernas mandavam. Ao cruzar a esquina, lembrou-se do terreno baldio e parou. Passou por debaixo de um emaranhado de arame e sentou-se na primeira sombra que avistou. Diante de seus olhos, a maçã. O coração batia descompassado diante daquele pequeno espetáculo que brotava de suas mãos. Lágrimas ligeiras escorriam pelas maçãs do rosto. Um brilho irradiava da maçã roubada. A maçã que era só sua.

A maçã que não dividiria com ninguém. Nem mesmo com sua mãe, a estrela de cinema que não gostava de maçãs.


III

Era Glória e as manhãs. 

O alto-falante do caminhão da cândida despertou Glória. E que horrível era a sensação de ter acordado. De novo. Não fosse a voz aguda que vendia candura, Glória não despertaria jamais. Que horrível eram as manhãs. Um dia inteiro pela frente para ser preenchido sabe-se lá como. As noites eram melhores, davam a confortante ideia de completude, de um dia que se cumpriu, de ter se livrado de algo cuja responsabilidade já não lhe pertencia. As manhãs não. As manhãs anunciavam que agora era com ela. Era o começo de uma nova oportunidade que Glória não fazia a menor questão de ter.

Com esforço, sentou-se na cama. A fisgada. A dor. Lembrou-se da Doença. Manquitolando chegou ao banheiro. Esforçava-se para não olhar para o espelho. A imagem que ele revelava lhe era abominável, sobretudo nas manhãs. Por descuido, olhou para os pés e entristeceu-se. Bem que tinha reparado que o médico olhara muito para os seus pés na última consulta. Decerto tinha nojo de suas unhas quebradas e sem pintura. Decerto lhe atendera mal por causa disso. Decerto havia achado um absurdo alguém ir ao médico com as unhas naquele estado. Estudar tanto para isso! Sua mulher devia ter unhas lindas e bem cuidadas. Bom devia ser mulher de médico... Da próxima vez, iria ao médico de meia e tênis. A filha prometera lhe fazer as unhas no feriado, quando viria do interior para lhe ver, mas a passagem era cara e o marido muito ocupado. Bom seria ter um marido. Num átimo, desviou os olhos do pé e desgraçadamente deu de cara com si mesma refletida no espelho. Chorando. Ver-se chorando lhe era insuportável. Virou o espelho. Saiu rápido do banheiro.

A fisgada. Dessa vez mais aguda. Glória levou a mão à perna. Nada lhe levaria a fazer o que todos lhe recomendavam. Jamais usaria bengalas ou andadores. Não tinha idade para isso. Seu avô morrera aos noventa e quatro anos, andava com elegância e praticava esportes todos os dias até os oitenta e poucos anos. Glória ainda não tinha chegado aos setenta e não se prestaria ao ridículo. Que usassem eles, se tanto lhes apetecia. A dor havia de passar sem isso.

A fisgada. A dor. Lembrou-se da Doença.

Chegou na maldita escada que teria que descer para chegar à sala e à cozinha. A cada degrau uma fisgada. 

Na sala, silêncio. Glória estava absolutamente só.


IV

Era Glória e o branco.

No início era a cor. Depois só ficou o branco. 

O branco das paredes. O branco dos azulejos. O branco dos lençóis que repousavam sobre leitos brancos. O terrivelmente branco da palidez do Pai. O branco do teto, o branco das louças, o branco do ar e o branco imaculado do avental do homem do conserto. Aos olhos de Glória, o Pai sempre fora inquebrantável, uma fortaleza, um gigante. Ao menos até o dia em que tudo ficara branco.

A partir daquele dia o Pai passara a ter uma existência horizontal. Uma existência ligada a fios, tubos e botões. E sobretudo uma existência assistida pelo homem do conserto - não era assim que o Pai sempre se referia aquele homem? Ao homem que vinha para lhe conectar novamente ao mundo? Teria aquele homem poder para tanto?

Já fazia um tempo que Glória percebera que o Pai vinha mudando. Os passeios foram rareando e, nos últimos tempos, deixaram de existir. A risada espalhafatosa virara um sorriso melancólico, de quem parecia querer mais chorar do que rir. As visitas ao homem do conserto passaram a ser cada vez mais frequentes. 

Glória não entendia bem o que aquele homem consertava. O Pai nunca tinha permitido que a menina o acompanhasse. Sempre dizia que o homem do conserto não gostava de crianças. O fato é que o Pai invariavelmente voltava com um saquinho cheio de pequenas cápsulas (balas e caramelos? Por que diabos o Pai esconderia balas e caramelos dela?) e depois de alguns dias parecia mesmo que retornava a ser o que era.

Daquela vez a visita estava demorando demais. Quando, afinal, Glória foi ver o Pai naquele universo branco, quase não o reconheceu. Seria ainda o seu Pai que estava ali? Um homem aparecia de tempos em tempos e, através de curiosos penduricalhos, parecia entrar em contato com o Pai. A avó paterna, sua companheira na visita ao mundo branco, lhe disse que aquele era o homem do conserto. Era incrível! Bastava aquele homem vir para que tudo naquela sala branca se transformasse, exceto, é claro, a branquitude. Esta só aumentava.

Aumentou tanto que, passados alguns dias (ou seriam meses?) Glória passara a ver tudo como uma grande névoa, mal distinguindo uma coisa da outra. Era tudo uma sufocante massa branca. E no meio de tudo isso, seu Pai, ou aquele que diziam ser seu Pai. 

Não havia relógio e tampouco chegava ali a luz do dia. O tempo era marcado pelas visitas do homem do conserto. Pela manhã – e invariavelmente despertando Glória - o homem do conserto chegava, manuseava com esmero seus penduricalhos, trocava meia dúzia de palavras com a avó e ia embora. Vinha uma segunda vez anunciando a tarde e uma terceira vez trazendo consigo a noite. Sempre realizava os mesmos procedimentos e nunca dirigiu uma palavra à Glória. O Pai devia ter razão. O homem do conserto não gostava de crianças. 

Até que numa noite, depois de incontáveis noites, todas elas dormidas ao lado do Pai, Glória foi invadida por pesadelos. Ouvia barulhos de gente, de móveis se arrastando, de vozes (seria a do homem do conserto?), mas não sabia dizer se vinha do sonho ou do mundo branco. Tudo se confundia. Acordou sobressaltada. Divisou sua avó sentada ao seu lado, olhando ternamente para ela, enquanto a acariciava. O Pai estava no leito. (O Pai estava no leito?).

Branco.

Faltava alguém. Glória sempre acordava quando ele chegava. Dirigiu-se a avó:

- O homem do conserto não vem?
- Não, querida, não vem. Não há mais o que ser consertado...




V

Era Glória e mais ninguém.

A solidão doía mais que a perna. E como lhe doía a perna! A Doença já lhe fazia companhia desde o tempo em que os gêmeos ainda moravam com ela. Os gêmeos se foram, só ficou a Doença.

Eram bivitelinos. Nunca soube ao certo o que aquela palavra queria dizer, mas a achava bonita, por isso a usava sempre que possível. Era mãe de gêmeos bivitelinos! - o doutor a informara e a ela não lhe ocorreu perguntar porquê. A Moça, sempre muito ocupada, nunca aceitou o convite de Glória de morar com o marido no quartinho dos fundos. O marido jamais se acostumaria. Mas como isso teria sido bom, a louça nunca teria chegado ao estado em que chegara. Sem contar o pó, que a Moça nunca se recusara a espanar. Mas a Moça se foi. Para bem longe. Foi morar para junto do marido, lavar outras louças, espanar outros pós. Quase nunca lhe visitava - a passagem era cara, o marido muito ocupado - mas quase todo dia se falavam ao telefone, nunca pela manhã, já que a clínica onde trabalhava não aceitava pausas para telefonemas. Só se falavam pela noite. As manhãs eram horríveis.

A tela da TV desligada refletia tudo e foi ao olhar para ela que Glória se viu, ainda parada, no meio da sala, sem saber o que fazer com aquela manhã. A solidão era aterradora. Precisava ouvir o som de voz humana e dessa vez alguma que não fosse a sua. Imaginar interlocutores nem sempre funcionava. Ligaria para o Rapaz. Ao contrário da irmã gêmea, este era bem menos ocupado, ainda que não soubesse ao certo o que ele fazia da vida. Àquela hora, decerto estaria cuidando da Menina, a neta mais nova. Ainda assim, ligaria para ele. Discou os nove números e ouviu a conhecida voz masculina do secretário eletrônico. Era uma voz simpática, às vezes mais simpática que a do Rapaz, mas naquele momento não lhe servia. Desligou sem deixar recado. Tentaria ligar mais tarde, quando a esposa já teria chegado do trabalho. O Rapaz nunca atendia quando estava só com a Menina.

Ainda havia os dois mais velhos, mas a esses preferia nem tentar. O Primeiro, assim como a Moça, morava em outra cidade e também era muito ocupado. Lambia o chão por onde a esposa passava e não tinha olhos para mais nada. Há muito não visitava a mãe. Tinha três filhos, os mesmos que sorriam no porta-retratos que ornava a estante da sala de Glória. A foto fora tirada há dois anos, quando a Doença dera uma trégua e Glória havia conseguido visitá-los. Tinha indisfarçável predileção pelo neto mais velho, a cara do pai, aquele que dormia segurando sua mão e que a trocou por aquela desdentada. Sim, desdentada. Porque desdentada e cariada estava quando a conheceu. Não fosse a cegueira de seu filho, que se deixou levar por aquela sereia cariada, ele ainda poderia estar segurando sua mão.

A fisgada. A dor. Lembrou-se da Doença e sentou-se. Sentada, a perna esquecia-se de doer. O problema seria quando Glória atinasse em levantar. A dor diverte-se em se vingar de quem a engana.

Ligaria para o Segundo? Tinha a frieza do Primeiro, herança do pai, mas mudara um pouco depois da Doença. Bem pouco. Os cuidados com a filha e o ciúme da esposa o aprisionavam bem longe de Glória. Não, não ligaria. Da última vez  ele tinha vindo com aquela história de carma, de expiação, de que ela estaria pagando pelos malfazeres de outra encarnação. Maldito kardecismo era aquele em que o filho se metera. Mal podia dar conta daquela vida, como queria ele que se preocupasse com outras? Mais um que era manipulado pela megera da esposa! A gente planta tâmara, mas jamais chegará a colhê-las, dizia o malditado árabe. Ainda se lembrava dele, pequenininho ainda, na fila para receber a primeira comunhão, o sorriso orgulhoso no rosto... não, não ligaria. Quem sabe quando ela morresse e virasse espírito, quem sabe assim teria algum valor para ele. Agora não. Não, não ligaria!

Sempre quisera filhos, muitos filhos, para sempre ter a casa cheia. Tão cheia que a incomodasse. Imaginara mesa cheia aos domingos, marido, filhos, genros, noras, netos e bisnetos. Todos felizes e sadios aguardando ansiosos a comida que ela prepararia.  Sonhava com o barulho e a algazarra das famílias felizes das novelas que via na TV.

Mas agora só o que havia era silêncio. Era Glória e mais ninguém. Era Glória e a promessa de um telefone que insistia em não tocar. Era Glória, sentada sozinha numa velha poltrona, olhando para um ponto impreciso a sua frente, pensando em cada uma de suas mortes.


VI

Era Glória e o buraco.

Ia começar de novo. As primeiras porções de terra já estavam sendo retiradas e a cova ia tomando forma. Naquela noite, como em tantas outras noites, Glória seria enterrada viva. E o que mais a sufocava era saber. Sábios são os que ignoram ou os que preferem não saber. Mas ela sabia, sentada que estava diante do homem que lhe moldava a cova. Não estava presa a nada. Nada lhe obstruía a passagem, nada lhe atava os pés ou as mãos, mas não conseguia fugir. Algo lhe fazia assistir, de forma quase condescendente e sem ao menos desviar o olhar, aquele espetáculo macabro. Grãos de terra seca, restos de raízes e animais decompositores. Glória pensava – porque ainda conseguia pensar – em quem seriam suas companhias quando ao homem lhe ocorresse, por fim, depositar-lhe na cova. Qual seria a sensação da terra a lhe cobrir o rosto? Por quanto tempo suportaria a comichão dos microscópicos animais a lhe devorar a carne? E ainda havia o escuro. E ar... por quanto tempo teria ar? O buraco estava quase pronto. Tinha exatamente o seu tamanho. O homem parou de cavar. Pela primeira vez, desviou o olhar da cova e virou-se para Glória. Pânico. Glória libertou da alma o maior de todos os gritos, mas a este não lhe apetecia a liberdade. Glória abriu a boca, esbugalhou os olhos, mas o grito não saía. Era um gritar sem grito. Gritar-silêncio. E Glória não sabia fugir.
Glória transpirava.
Foi quando sentiu o toque daquelas mãos.
Súbito, homem e buraco desaparecem. Desta vez o grito deixou-se libertar. As macias mãos da avó paterna, mãos de liberdade.
Sim, aconteceu de novo. Por mais aquela vez Glória deixara acontecer, mas estava decidida. Não dormiria mais. Quando chegasse a hora e todos fossem para seus quartos, Glória apenas fingiria fazer o mesmo. Iria para a cama, mas por nada no mundo fecharia os olhos. Isso seria admitir a passagem para aquele outro mundo, o mundo do buraco e do homem que lhe enterrava viva. Até quando teria a mão da avó para lhe trazer de volta? Até quando não conseguiria fugir? Por que sempre se via diante daquele buraco que ia tomando forma para lhe servir de cova? Por que toda noite... toda noite... noite... noite...

***

Ia começar de novo. As primeiras porções de terra já estavam sendo retiradas e a cova ia tomando forma. Naquela noite, como em tantas outras noites, Glória seria enterrada viva.

VII
Era Glória e o dia da consulta.
Mais uma manhã. Desta vez fora o despertador quem tirou Glória do sono. Era o dia da consulta. Acordou sobressaltada com o susto. Não sabia porque inventavam despertadores tão escandalosos. Aquelas porcarias, além disso, não duravam nada. Era um eterno trocar de pilhas. Além dos botões que não entendia. Maldita modernidade. Bons eram os relógios de corda que duravam uma vida e não faziam aquele estardalhaço todo. A vontade era lhe atirar longe, mas sabia que se o fizesse teria que sair de casa para comprar outro. E Glória não queria sair de casa. Glória só saía de casa para as consultas. A de hoje era às oito. Considerando o tempo que gastaria mancando até o ponto de ônibus, precisaria de uma antecedência de duas horas, calculou. Maldito hospital que fica tão longe. A fisgada. A dor.
Motivada pelo rápido tiquetaquear do despertador, ergueu-se na cama. Apoiando-se na cômoda, girou as pernas por noventa graus e conseguiu colocar os pés no chão. A dor.
A casa ainda estava escura. Há pouco que o relógio passava das cinco.
Passou rapidamente pelo banheiro, cuidando para não ser vista pelo espelho. Tinha pouco mais de meia hora para tomar todos os remédios e arrumar tudo para a consulta. A escada. Soubesse Glória que ficaria velha e ainda moraria na mesma casa, jamais teria aceitado comprar um sobrado. Fora ideia do Marido. Do Marido que agora estava longe, morando em uma casa sem escadas, sem nem se lembrar que Glória existe. E que sente dor. E que há quarenta anos precisa subir e descer os treze degraus acarpetados daquela escada que tantas vezes Ele também desceu e subiu, e que um dia desceu e nunca mais subiu. A mesma escada que tantos já subiram e desceram e se foram. A mesma escada que Glória agora descia pensando em tudo isso, prendendo a respiração a cada fisgada. Uma mão no corrimão, a outra na perna. A sensação de dolorosa vitória a cada degrau vencido. Seriam treze gemidos até chegar na sala.
Até o quinto degrau o andar foi penoso, mas ainda assim constante. No sexto estancou. Tontura. Os degraus embaralhavam-se diante de Glória. Agarrou-se ao corrimão. Já fazia dois dias que Glória se alimentava de restos esquecidos na geladeira. Dormira cedo para disfarçar a fome. Era melhor do que ter que cozinhar. A fome, no entanto, não se esquecera de Glória e agora reaparecia em forma vertiginosa. Lembrou-se da Doença. Aquela vertigem teria a ver com a Doença? Daria mais um passo. Tontura. Glória projetou-se para a frente, mas a perna se negou a acompanhá-la. O corrimão não foi suficiente para amparar Glória. Num instante sentiu seu corpo sendo golpeado de todos os lados por todas as quinas dos degraus acarpetados da escada de sempre. Glória jazia, em dor e em pranto, no minúsculo vazio existente entre o primeiro degrau da escada e o sofá da sala. Tudo estava escuro e Glória não podia mover-se.
Lá fora, um cão latia.
(...)

VIII.
Era Glória e a espera.
Ia começar de novo. Os primeiros minutos depois das oito já haviam sido transcorridos e a vontade de ser enterrada viva ia tomando forma. Naquela noite, como em tantas outras noites, Glória não dormiria. Nas noites do sexto dia, conforme era o costume, o Marido não voltava para casa. Dormiria em camas alheias com mulheres de todos os nomes e nenhuma seria Glória. Apenas na manhã seguinte retornaria, com olhos de ontem e as palavras de sempre. Lhe cobraria o café no ponto e o pão passado na chapa. E que depois lhe acordasse ao meio-dia, com almoço pronto e bem feito, porque agora dormiria o sono dos justos, que era como ele era. E o que mais a sufocava era saber. Sábios são os que ignoram ou os que preferem não saber. Mas ela sabia, casada que era com o homem que lhe moldava a cova. Não estava presa a nada. Nada lhe obstruía a passagem, nada lhe atava os pés ou as mãos, mas não conseguia fugir. Algo lhe fazia assistir, de forma quase condescendente e sem ao menos desviar o olhar, aquele espetáculo macabro.
Um lugar vazio na cama, dias solitários e olhares reprovadores. Glória pensava – ainda conseguia pensar? – em quem seriam suas companhias quando ao homem lhe ocorresse, por fim, não voltar na manhã seguinte. Lembrou-se dos filhos. O que contaria para os filhos? Como convencê-los de que ela não tinha culpa (ou será que tinha?).  Por quanto tempo suportaria a comichão de microscópicas indagações a lhe devorar a alma? E como seria com os amigos? Decerto que lhe abandonariam – eles eram amigos dela ou eram amigos do marido? Qual seria a sensação quando todos lhe virassem o rosto? E ainda havia o escuro. E ar... por quanto tempo teria ar? O relógio passou rápido pelas onze e célere chegou na fronteira com o sétimo dia. O homem novamente não. Pela primeira vez, desviou o olhar do relógio e ateve-se ao buraco. Ao buraco que trazia dentro de si. Pânico. Glória libertou da alma o maior de todos os gritos, mas a este não lhe apetecia a liberdade. Glória abriu a boca, esbugalhou os olhos, mas o grito não saía. Era um gritar sem grito. Gritar-silêncio. E Glória não sabia fugir.
Glória estava seca.
Foi quando se lembrou do toque daquelas mãos.
Por um segundo esqueceu do homem e do buraco. Daquela vez não quis gritar, apenas deixar que caíssem lágrimas de quem daria tudo por aquelas mãos macias da avó paterna, mãos de liberdade.
Sim, aconteceu de novo. Por mais aquela vez Glória deixara acontecer, mas estava decidida. Não esperaria mais. Quando o fim do sexto dia novamente chegasse e os filhos fossem para seus quartos, Glória faria o mesmo. Trancaria todas as portas e cerraria as janelas. Não desviraria uma só vez o olhar para a fechadura. Não, não aconteceria mais. E se porventura a Ele ocorresse voltar, não se levantaria para esquentar o jantar. Sim, da próxima vez não esperaria. Fecharia as cortinas da sala e do quarto. Apagaria, uma a uma, todas as luzes.
(...)
Exceto a da entrada.
(...)
Que era para o caso de...
***
Ia começar de novo. Os primeiros minutos depois das oito já haviam sido transcorridos e a vontade de ser enterrada viva ia tomando forma. Naquela noite, como em tantas outras noites, Glória não dormiria.

VI

Era Glória e os primos

A casa dos avós paternos era grande, mas parecia pequena quando vinham os primos. Não que fossem muito numerosos. Eram apenas três. Mas quando eles vinham, Glória sempre gostava de brincar do jogo do invisível. Eles viviam junto de suas mães e aparentemente se orgulhavam muito disso. Não sabiam que a Mãe de Glória, tia deles, era atriz de cinema e também um pouco esquecida. Por isso divertiam-se em chamar Glória de nomes que ela pouco entendia, mas que lhe soava muito mal. Sempre que o avô não estava por perto, arrumavam um jeito de atazaná-la. Quando sua Mãe chegasse, lhe contaria tudo! Quando sua Mãe chegasse, não precisaria se esconder! Quando sua mãe chegasse... e um nozinho estranho na garganta a fazia interromper o fluxo de pensamentos. A mãe não estava ali. Ali não era o lugar de Glória. Mas onde seria seu lugar? Onde ela se sentia em casa? Não sabia responder. O lugar de Glória era o mundo inteiro. O lugar de Glória era lugar nenhum.


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